Grave

(2016) ‧ 1h39

A fome que desperta

Felipe Fornari

Grave é um daqueles filmes que utilizam o horror como ferramenta para falar de algo muito maior do que monstros, sustos ou violência. A diretora Julia Ducournau transforma uma história aparentemente absurda sobre canibalismo em uma inquietante jornada de amadurecimento, identidade e descoberta dos próprios desejos. O resultado é um longa perturbador, mas também surpreendentemente humano.

A protagonista Justine chega à faculdade de veterinária carregando os valores rígidos de sua família, todos vegetarianos e ligados à profissão. Tímida, disciplinada e aparentemente incapaz de desafiar qualquer regra, ela logo se vê mergulhada em um ambiente hostil, marcado por trotes humilhantes e pela pressão para se encaixar. Quando é obrigada a experimentar carne pela primeira vez, algo desperta dentro dela, desencadeando uma transformação que vai muito além de uma simples mudança alimentar.

O grande mérito do filme está na forma gradual como acompanha essa metamorfose. Em vez de apostar apenas em choques visuais, a narrativa constrói lentamente a sensação de desconforto, permitindo que o público acompanhe cada passo da evolução de Justine. O horror nasce tanto dos acontecimentos extremos quanto das inseguranças comuns da juventude, tornando a experiência ainda mais inquietante.

Ducournau demonstra um controle impressionante da linguagem cinematográfica. A fotografia utiliza cores vibrantes e iluminação contrastante para criar uma atmosfera ao mesmo tempo sedutora e ameaçadora, enquanto a câmera observa os personagens com uma proximidade quase íntima. Em muitos momentos, o filme parece oscilar entre sonho e pesadelo, aumentando a sensação de que estamos acompanhando uma realidade prestes a se romper.

Garance Marillier entrega uma atuação extraordinária como Justine. Sua interpretação transmite vulnerabilidade, curiosidade, desejo e medo em igual medida, tornando crível uma transformação que poderia facilmente soar exagerada. A relação com Alexia, vivida por Ella Rumpf, acrescenta novas camadas à história, revelando tensões familiares que ajudam a compreender melhor os impulsos que movem as duas personagens.

Embora seja frequentemente lembrado por suas cenas mais gráficas, Grave funciona melhor quando explora seus aspectos simbólicos. O despertar do apetite de Justine pode ser interpretado como uma metáfora para sexualidade, independência, autoconhecimento ou até mesmo para a inevitável ruptura com os valores herdados da família. O filme evita respostas fáceis e permite múltiplas leituras, enriquecendo sua narrativa.

Ao final, Grave se revela uma obra de horror singular, que utiliza o grotesco para investigar desejos reprimidos e transformações inevitáveis. É um filme desconfortável, provocador e por vezes difícil de assistir, mas também inteligente e fascinante em sua construção. Julia Ducournau apresenta uma visão autoral poderosa, criando uma experiência que permanece na mente muito depois dos créditos finais.

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