Honey, Não!

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"Honey, Não!": Uma bagunça charmosa

Honey, Não! é uma comédia noir ensolarada e abertamente queer que se diverte com os clichês do gênero, mesmo sem se comprometer com uma trama sólida. Dirigido por Ethan Coen, o filme apresenta Margaret Qualley como a detetive particular Honey O’Donahue, uma investigadora cheia de atitude — e libido — que se envolve em um caso de assassinatos ligados a uma seita religiosa comandada pelo padre Dean (Chris Evans). O resultado é uma mistura de tons: um noir que prefere o caos à coerência, mas que encontra graça justamente nessa bagunça.

Honey é uma personagem tão carismática quanto desastrada. Ela tem faro para encrenca, desconfia de todo homem que cruza seu caminho e parece mais interessada em suas próprias distrações do que em resolver o caso. Essa despreocupação é o motor do humor do filme — e também seu maior problema. Assim como a protagonista, Honey, Não! se deixa levar por digressões e personagens excêntricos, acumulando mais desvios do que descobertas.

A parceria entre Ethan Coen e Tricia Cooke, que já haviam colaborado em Garotas em Fuga, novamente brinca com o cinema de gênero e o subverte sob um olhar lésbico e debochado. Há ecos dos velhos tempos dos irmãos Coen, mas a precisão narrativa e o senso de ritmo dos clássicos como O Grande Lebowski ou Onde os Fracos Não Têm Vez dão lugar a um desleixo calculado. O filme parece feito para quem aprecia o improviso, o nonsense e personagens que não levam nada muito a sério.

Chris Evans, por sua vez, abraça com gosto o papel de vilão, interpretando um pastor narcísico e corrompido com uma mistura de charme e repulsa. Seu Dean é um líder espiritual com um pé no crime e outro no sadomasoquismo — um tipo grotesco que se encaixa perfeitamente nesse universo moralmente bagunçado. Mesmo sem grandes nuances, Evans se diverte, e isso transparece.

O elenco feminino, no entanto, é o que realmente sustenta o filme. Além de Qualley, que domina cada cena com carisma e ironia, Aubrey Plaza e Lera Abova surgem como presenças magnéticas, servindo tanto de interesse amoroso quanto de espelho da própria confusão interna da protagonista. As interações entre essas personagens rendem os momentos mais vivos do longa, cheios de humor e tensão sexual.

Visualmente, Honey, Não! também chama atenção. Coen e Cooke aproveitam as paisagens áridas da Califórnia para compor um cenário que parece viver entre o kitsch e o desespero. Há algo de propositalmente decadente em cada detalhe — como se o filme fizesse questão de rir de si mesmo enquanto desmonta a seriedade do noir clássico.

Apesar da leveza e do tom anárquico, o filme deixa uma sensação de vazio. Falta-lhe um fio condutor mais firme, algo que transforme sua sucessão de boas ideias e piadas espirituosas em uma narrativa realmente envolvente. Ainda assim, Honey, Não! é um passeio divertido — uma comédia queer que prefere o prazer da deriva à obrigação de chegar a algum lugar.

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