Imperfeitamente Perfeita

(2025) ‧ 1h55

"Imperfeitamente Perfeita": Quando boas intenções não bastam

Felipe Fornari

Imperfeitamente Perfeita marca o retorno de James L. Brooks ao cinema com uma proposta que, à primeira vista, soa irresistível: um drama político leve, centrado em uma mulher idealista tentando conciliar vida pessoal e responsabilidades públicas. Ambientado em 2008, o filme acompanha Ella McCay, vivida por Emma Mackey, uma jovem política prestes a assumir o cargo de seu mentor, o governador do estado. Há algo de nostálgico nessa escolha de tom e época, remetendo a um tipo de produção adulta de médio orçamento que praticamente desapareceu das salas de cinema.

E é impossível não sentir certa simpatia inicial por essa proposta. Existe, sim, uma saudade desse cinema que apostava em personagens comuns, conflitos moderados e uma mistura de humor e sensibilidade, como em Laços de Ternura, Nos Bastidores da Notícia ou Melhor é Impossível. Brooks construiu sua carreira exatamente nesse território, equilibrando inteligência emocional e apelo popular. Em tese, Imperfeitamente Perfeita poderia funcionar como uma espécie de despedida honrosa de um cineasta fundamental.

O problema é que o filme rapidamente se revela desorganizado e dramaticamente confuso. A narrativa tropeça desde o início, com decisões de roteiro pouco inspiradas e uma estrutura que parece ignorar qualquer lógica interna. Em vez de desenvolver conflitos de forma orgânica, o longa acumula situações explicadas em excesso, sublinhadas e, por vezes, constrangedoras, como se não confiasse na inteligência do espectador.

A história de Ella, apresentada como a trajetória de uma mulher brilhante que superou traumas familiares para chegar ao poder, nunca encontra um eixo sólido. O filme se perde em desvios narrativos, personagens que entram e saem sem função clara e cenas que se resolvem rápido demais, sempre amarradas com laços emocionais artificiais. O resultado é uma sucessão de momentos que não se conectam, nem emocionalmente nem tematicamente.

O elenco numeroso acaba sendo mais um sintoma desse excesso. Jamie Lee Curtis surge como a tia expansiva em uma atuação que beira a caricatura; Albert Brooks entrega frases supostamente espirituosas que soam vazias; Rebecca Hall aparece rápido demais para causar impacto; e vários coadjuvantes parecem existir apenas para cumprir arquétipos. Falta espaço, profundidade e, sobretudo, coerência para que essas figuras façam sentido dentro do todo.

Emma Mackey se esforça para sustentar a protagonista e, em raros instantes, deixa entrever uma Ella mais complexa, especialmente quando o roteiro permite algum descontrole emocional ou contradição interna. Ainda assim, a personagem é definida por traços pouco cinematográficos, como sua competência técnica e reatividade constante, o que dificulta a empatia e esvazia seu arco dramático.

No fim, Imperfeitamente Perfeita é um filme frustrante justamente porque sugere algo melhor do que consegue entregar. Há lampejos de um drama mais humano e interessante, escondido sob uma camada de artificialidade e decisões equivocadas. O que poderia ser um retrato sensível sobre poder, escolhas e amadurecimento acaba se tornando um amontoado de boas intenções que nunca se organizam em um todo convincente.

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