Jogo Sujo

(2025) ‧ 2h05

"Jogo Sujo": O golpe que saiu pela casaulatra

Felipe Fornari

Jogo Sujo chega aos cinemas cercado de expectativas, já que marca o retorno de Shane Black após sete anos sem dirigir. Conhecido por seu estilo marcado por diálogos afiados, humor sarcástico e pela habilidade de desconstruir os gêneros que toca, o diretor parecia pronto para entregar mais um trabalho vibrante. No entanto, o resultado está longe do que se esperava: em vez de um filme com identidade própria, temos uma aventura genérica de assalto que se perde em fórmulas previsíveis e efeitos visuais constrangedores.

A trama acompanha Parker (Mark Wahlberg), um ladrão profissional encarregado de executar um roubo de grandes proporções. Para isso, ele conta com a ajuda de Grofield (LaKeith Stanfield), um ator excêntrico, e Zen (Rosa Salazar), sua parceira ágil e sarcástica. Juntos, eles enfrentam a máfia nova-iorquina, políticos corruptos e traições que ameaçam o sucesso da missão. No papel, parece a receita perfeita para uma aventura eletrizante; na prática, o filme não encontra energia suficiente para se sustentar.

Ainda que se perceba aqui e ali a marca registrada de Black, como a dinâmica cômica entre os personagens e a leveza debochada em algumas cenas de ação, esses momentos são apenas lampejos. O que deveria soar como uma reinvenção do gênero acaba soando como repetição preguiçosa. A química entre Wahlberg, Stanfield e Salazar até existe, mas nunca chega a incendiar a tela, ficando restrita a diálogos que soam reciclados.

O grande calcanhar de Aquiles de Jogo Sujo está na parte técnica. As cenas de ação, que deveriam ser o ponto alto, são prejudicadas por efeitos visuais mal finalizados e coreografias confusas. Explosões artificiais, cenários digitais mal renderizados e perseguições que parecem saídas de um jogo de videogame antigo tiram o espectador da imersão. Em 2025, é frustrante ver um estúdio desse porte entregar resultados tão aquém do esperado.

No campo narrativo, o problema é ainda maior. A história é previsível do início ao fim, sem qualquer frescor criativo. O roteiro, baseado na obra literária de Donald E. Westlake, poderia oferecer material rico, mas se contenta com soluções batidas e diálogos expositivos que subestimam a inteligência do público. O clímax, em especial, recorre ao ultrapassado recurso de vilão explicando cada detalhe do plano, algo que soa datado e preguiçoso.

O elenco, apesar de talentoso, pouco pode fazer diante de um material tão limitado. Wahlberg repete tiques já conhecidos, enquanto Rosa Salazar confirma seu carisma, mas merecia mais espaço. LaKeith Stanfield, com seu personagem exagerado, é o único que consegue arrancar algum brilho do roteiro, trazendo uma energia que falta ao restante da produção. Até mesmo a trilha sonora de Alan Silvestri, geralmente memorável, passa despercebida, reforçando a sensação de falta de identidade do filme.

No fim, Jogo Sujo é um desperdício de potencial. Não apenas desperdiça um elenco talentoso, como também dilui a assinatura de Shane Black em um projeto sem alma. O que poderia ser um heist movie eletrizante se transforma em uma obra esquecível, marcada por problemas técnicos e narrativos. Para os fãs do diretor, fica a decepção; para os demais, uma sensação incômoda de déjà-vu.

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