Julieta

(2016) ‧ 1h39

As marcas do amor, da perda e do silêncio

Felipe Fornari

Em Julieta, Pedro Almodóvar retorna ao universo feminino que marcou grande parte de sua trajetória para construir uma história sobre culpa, ausência e os vínculos que permanecem mesmo quando tudo parece perdido. Mais contido e melancólico do que outras obras do diretor, o filme troca os excessos do melodrama tradicional por uma abordagem mais silenciosa sobre as feridas emocionais de uma mãe que tenta compreender o afastamento da própria filha.

A protagonista Julieta (Emma Suárez/Adriana Ugarte) é apresentada em um momento de transição, pronta para deixar Madri e começar uma nova vida ao lado de Lorenzo. Porém, um encontro inesperado com uma antiga amiga de sua filha Antía desperta lembranças que ela tentou guardar durante anos. A decisão de voltar ao antigo apartamento e escrever uma carta para a filha transforma o passado em uma espécie de confissão.

A estrutura de Julieta acompanha diferentes momentos da vida da personagem, revelando aos poucos como uma sequência de perdas moldou sua existência. Almodóvar explora a juventude da protagonista, seus amores, a maternidade e os acontecimentos que levaram ao rompimento entre mãe e filha. O filme constrói esse quebra-cabeça emocional sem pressa, deixando que cada revelação modifique a forma como enxergamos Julieta.

A relação entre mãe e filha é o verdadeiro centro da narrativa. Assim como em Tudo Sobre Minha Mãe e Volver, o diretor volta seu olhar para mulheres tentando lidar com ausências e memórias dolorosas. No entanto, aqui ele apresenta uma dinâmica mais amarga, em que o amor não é suficiente para impedir o afastamento e onde o silêncio se torna tão destrutivo quanto qualquer conflito aberto.

O passado da protagonista é marcado por encontros e despedidas que carregam a assinatura do melodrama de Almodóvar. A presença de Xoan, a relação com a filha e as tragédias familiares revelam uma personagem acostumada a perder aquilo que ama. Mesmo sem apostar no humor ou na energia vibrante de outros trabalhos, o diretor mantém seu interesse por personagens femininas complexas, cheias de contradições e sentimentos reprimidos.

Visualmente, Julieta mantém o cuidado estético habitual do cineasta, com cores, espaços e objetos carregados de significado. O apartamento, as cartas e os cenários funcionam como extensões da memória da personagem, lugares onde o passado permanece vivo. A elegância das imagens reforça a sensação de distância emocional que acompanha Julieta durante toda a história.

Embora não tenha a força arrebatadora de alguns dos maiores filmes de Almodóvar, Julieta é uma obra sensível sobre luto, maternidade e a necessidade de encarar aquilo que ficou para trás. É um filme mais discreto dentro da filmografia do diretor, mas que encontra beleza justamente na fragilidade de uma mulher tentando reconstruir sua própria história.

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