Julieta

07.07.2016 │ 16:11

07.07.2016 │ 16:11

Depois de Amantes Passageiros, o nome de Pedro Almodóvar aparecia apenas na produção de filmes ótimos como Relatos Selvagens e O Clã. Desde A Pele que Habito, o diretor aparentava estar perdido diante da própria filmografia, experimentando temáticas e estéticas diferentes das que o consagraram. Foi necessário um contato direto com a leitura da nobel canadense Alice Munro para que Almodóvar retornasse a um dos temas mais caros à sua obra: protagonistas mulheres em processos de buscas através de fortes rituais de desapego, descoberta e aceitação. O esperado Julieta vai além de um simples retorno aos excelentes Fale com Ela, Tudo Sobre Minha Mãe ou Volver, é um filme maduro que conecta os fios da vida de ponta a ponta, como muitas das grandes narrativas já fizeram.
No livro de contos A Fugitiva, Alice Munro traz a história de Juliet em três textos separados, conectados apenas por uma lógica sequencial do livro. Numa tarefa literária de ir e voltar no tempo, as narrativas unem e separam Juliet de sua filha, em um ciclo de eterno retorno, como aconteceu com ela e sua mãe. Em Julieta, Almodóvar constrói a sua protagonista, retirada de um universo literário e reconstruída dentro do seu já conhecido mundo de papéis de parede poligonais com cores quentes. Julieta é uma mulher independente que guarda vários ressentimentos por trás de sua força aparente. Sem ver a filha há mais de doze anos – que simplesmente sumiu sem dar muitas explicações – ela se desestrutura completamente ao encontrar a ex-melhor amiga da garota, em um encontro inesperado na rua. Dessa forma a protagonista precisa reconstruir o seu passado e tentar lidar com o sumiço de Antía, revivendo as dores que já causou para aprender a lidar com a dor que sente.
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Em Julieta, ao invés de usar uma estrutura formal de separação do tempo – com elipses, flashbacks/forwards e afins – Almodóvar foca na maneira como as personagens lidam com as agruras da vida, utilizando cores e elementos de cena. Como permanecer impune diante das perdas, da depressão e a inconsistência do cotidiano? Como na vida real, as mulheres de Almodóvar se questionam, entram em conflitos mas antes de tudo se apoiam. Não há competições, a mágoa não se refere ao gênero. Mesmo que questões como maternidade estejam em jogo, a justificativa nunca está na culpabilização da figura materna, mas sim no desenvolvimento dos conflitos internos de cada personagem.
Se a autora canadense consegue ser tão íntima – e sincera – na narrativa sobre mulheres em seus contos, Pedro Almodóvar usa a sua estética peculiar, aliada com a direção de atrizes, para trazer as personagens mais frias do norte do Canadá para uma quente e dramática Espanha. É nesse ponto que os dois autores se completam primorosamente. A Julieta de Almodóvar é sagaz e viva, não apenas pelas interpretações excelentes de Adriana Ugarte e Emma Suárez, mas por ser tão humanamente plena em seus defeitos. As mulheres retratadas pelo diretor espanhol possuem as peculiaridades do além-ficcional, flertando com o real através do que poderia ser considerado como defeito. Outra característica fundamental do diretor – e bem desenvolvida aqui – é a forma como as personagens ganham força e desenvolvem aprendizado através da ausência e da perda de outra mulher em suas vidas.
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Nesse ritmo de focar no protagonismo de mulheres, o diretor vai contra toda uma estética costumeira no cinema comercial, trazendo um enredo desconectado de figuras masculinas. Não que os homens não façam parte da vida dessas mulheres, mas nada acontece dependendo da existência deles e sim apesar e além disso. Como bem define o título, Julieta é sobre uma mulher que aqui cria suas relações com o tempo e memória, e mais ainda sobre as tensões e quebras nos laços familiares, o desenvolvimento da intimidade e ligações nos relacionamentos. As personagens se doam por completo, até chegarem no limite e ao desgaste nas relações, então desaparecem, como gostaríamos de fazer na vida real.
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O cartaz de Julieta comprova os cuidados estéticos do diretor, como um poema ele é repleto de significados não só para aqueles que adentram o filme, mas também para quem apenas o observa antes da experiência. Duas atrizes, uma única protagonista, quase um paradoxo da Física olhando para a câmera. O passado e o presente, as marcas do tempo que constroem essas histórias. Encarando o cartaz, é possível afirmar que o diretor voltou para casa ao abraçar Alice Munro e trazer Julieta para seu mundo repleto de arte, planos que se abrem com o olhar e cores vibrantes. Mais uma vez ele nos coloca próximos de suas personagens, lidando com nossos próprios defeitos, sempre sendo um pouco como as mulheres de Almodóvar.
Nota:

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