Adaptar a obra de um Nobel de Literatura como Kazuo Ishiguro é um exercício de alta precisão cirúrgica. Seus romances sobre o desamparo humano, a memória e a inteligência artificial operam em frequências sutis, melancólicas e profundamente silenciosas. Em Klara e o Sol, dirigido por Taika Waititi e estrelado por Jenna Ortega, o maior obstáculo do filme parece ser justamente a colisão entre a delicadeza inerente do material original e a autoralidade extravagante e, aqui, frequentemente deslocada de seu diretor.
A premissa acompanha Klara (Ortega), uma Amiga Artificial (AA) movida a energia solar, dotada de uma capacidade de observação ímpar e de uma inocência quase devota. Comprada para fazer companhia a Josie (Mia Tharia), uma adolescente adoentada em um futuro distópico de pós-capitalismo e infâncias geneticamente modificadas, Klara tenta decifrar a complexidade caótica das emoções humanas.

Visualmente, o filme acerta ao entregar uma fotografia contemplativa assinada por Mike Berlucchi, que banha as cenas em tons ora estéreis, ora esperançosos. No entanto, o roteiro assinado por Dahvi Waller tropeça na pressa de desenvolver seus conflitos. Onde o livro de Ishiguro construía uma tensão sufocante e gradual sobre a obsolescência e a mercantilização da vida, o longa opta por atalhos narrativos. Decisões cruciais e dilemas éticos profundos são resolvidos de maneira célere, esvaziando o impacto dramático que o espectador espera carregar ao final da projeção.
O calcanhar de Aquiles da produção reside no tom. Conhecido por injetar um humor peculiar e cômico até mesmo em contextos sombrios (como em Jojo Rabbit), Waititi tenta aliviar a densidade da ficção científica com tiradas cômicas e uma leveza que simplesmente não dialoga com o lirismo trágico de Ishiguro. Essa insistência em buscar o alívio cômico corrói a atmosfera de estranhamento e solidão que sustenta a jornada de Klara, transformando momentos de genuína vulnerabilidade em passagens superficiais.

Apesar dos tropeços estruturais do roteiro e da direção irregular, o filme encontra refúgio absoluto nas atuações de seu núcleo principal. Jenna Ortega entrega uma performance física e sutil admirável: seus maneirismos robóticos nunca soam mecânicos demais, transmitindo com precisão cirúrgica a pureza e a evolução analítica de sua personagem. Ao seu lado, Mia Tharia (como Josie) e Amy Adams (como a mãe cética Chrissie) sustentam a espinha dorsal emocional da narrativa, injetando urgência e tragédia familiar onde o texto muitas vezes falha.
Klara e o Sol ambiciona ser uma reflexão tocante sobre o que significa amar na era da inteligência artificial, mas acaba se perdendo entre a exigência estética de uma grande produção comercial e a incapacidade de mergulhar nas sombras de seu próprio universo. É um filme que tem boas intenções e atuações inspiradas, mas que, ao tentar iluminar tudo com o otimismo pop de seu diretor, acaba deixando grande parte de sua poesia na penumbra.








