Longe Dela é uma obra que trata da erosão da memória com a mesma delicadeza com que outros filmes abordam o florescer do amor. Aqui, porém, não há promessas de recomeços, apenas a lenta despedida de uma vida compartilhada, costurada por gestos simples, culpas antigas e um afeto que resiste mesmo quando o reconhecimento se apaga.
A história acompanha Grant e Fiona, casados há mais de quatro décadas. Quando Fiona começa a apresentar sinais de Alzheimer, decide voluntariamente se internar em uma clínica especializada, um gesto que revela tanto sua lucidez quanto sua coragem. Grant, um professor aposentado, aceita a decisão com relutância, sem imaginar que a separação física seria apenas o início de uma distância mais dolorosa.

O que se segue é um processo silencioso e comovente de perda. Fiona passa a se afeiçoar a outro paciente, o gentil Aubrey, e Grant, isolado e impotente, precisa lidar com a ausência da mulher que ainda está viva, mas já não o escolhe. É nesse espaço entre o amor e a renúncia que Longe Dela constrói sua poesia – não como um lamento, mas como uma aceitação triste e serena da impermanência.
Sarah Polley, em sua estreia na direção, surpreende pela maturidade com que lida com temas tão delicados. Adaptando um conto de Alice Munro, a cineasta evita o melodrama e entrega um filme pautado pelo silêncio e pelo respeito às pequenas dores. Sua direção valoriza o não-dito, os olhares e as pausas – como se o próprio tempo se dilatasse diante da perda iminente.
Julie Christie está sublime como Fiona, equilibrando doçura e dignidade mesmo quando sua personagem começa a perder o fio da própria história. Gordon Pinsent, como Grant, oferece uma atuação comovente, marcada pela contenção. Seu amor por Fiona é também atravessado pela culpa de uma traição antiga, o que torna sua devoção ainda mais pungente. Olivia Dukakis, em participação breve mas marcante, injeta realismo e dureza quando necessário.

Mais do que um “filme sobre Alzheimer”, Longe Dela é um filme sobre o tempo – o que ele leva e o que deixa. É sobre como a memória constrói, sustenta e, aos poucos, desmonta uma vida a dois. E sobre como o amor verdadeiro, mesmo ferido e deslocado, pode se reinventar como um gesto de generosidade: o de permitir que quem amamos siga outro caminho, mesmo que esse caminho seja longe de nós.
Com sua neve constante e sua narrativa cuidadosa, Longe Dela permanece como uma obra rara, dessas que não gritam, mas ecoam. É um filme que sussurra verdades dolorosas, e, por isso mesmo, toca profundamente.



