Mais um Dia

(2026) ‧ 2h

Mais um Dia e os apagões de uma vida que se desfaz lentamente

Felipe Fornari

O alcoolismo costuma ser retratado no cinema por meio de extremos: ou se transforma em um atributo romantizado de artistas atormentados, ou serve como ponto de partida para uma narrativa de redenção na qual o sofrimento precisa conduzir necessariamente à superação. Mais um Dia, de Jeanne Herry, encontra um caminho mais interessante ao acompanhar uma jovem cuja dependência não se apresenta como um acontecimento extraordinário, mas como parte de uma rotina aparentemente comum. Garance continua trabalhando, estabelece relações afetivas e encontra motivos para rir de si mesma, mesmo enquanto sua vida se deteriora. É nessa contradição entre funcionalidade e autodestruição que o filme encontra sua maior força.

Interpretada por Adèle Exarchopoulos, Garance é uma atriz talentosa e espirituosa que transita entre trabalhos temporários, festas, encontros amorosos e apartamentos improvisados. Sua instabilidade profissional e emocional não parece, inicialmente, suficiente para interromper o cotidiano. Mesmo depois de perder uma oportunidade no teatro por causa de atrasos e esquecimentos, ela consegue encontrar outras maneiras de se manter ocupada, preservando uma aparência de normalidade. O roteiro acerta ao não transformar o passado da protagonista em uma explicação definitiva para sua dependência. Não existe uma revelação conveniente capaz de organizar toda a sua trajetória: o álcool faz parte de sua vida desde a adolescência, e a narrativa prefere observar as consequências dessa relação a procurar uma justificativa que torne tudo mais compreensível.

A escolha de acompanhar Garance por meio de uma estrutura fragmentada é particularmente eficaz. As elipses, as interrupções abruptas e as passagens para o preto reproduzem a desorientação de alguém que nem sempre consegue reconstruir o que aconteceu durante as horas anteriores. O tempo deixa de funcionar como uma sequência organizada de acontecimentos e passa a refletir a experiência de uma mulher incapaz de estabelecer continuidade entre suas próprias decisões. Essa estratégia formal aproxima o espectador de sua perspectiva sem transformar a embriaguez em um recurso estético glamorizado. Pelo contrário, a fragmentação revela o quanto a dependência pode comprometer a memória, a percepção e a capacidade de reconhecer a dimensão dos próprios atos.

Essa instabilidade também se manifesta nos espaços que Garance ocupa e nas relações que estabelece. Seus deslocamentos constantes, os vínculos afetivos que começam e se desfazem e a dificuldade de sustentar compromissos compõem o retrato de alguém que parece nunca encontrar um lugar seguro para permanecer. A pandemia de Covid-19 intensifica essa condição ao eliminar parte das distrações e dos mecanismos sociais que ainda permitiam disfarçar seu comportamento. Durante o confinamento, mesmo cercada pelo afeto da companheira, Pauline, Garance passa a beber cada vez mais cedo. O filme compreende que a presença de alguém disposto a ajudar não é suficiente para interromper uma dinâmica autodestrutiva, sobretudo quando o apoio emocional também começa a ser absorvido por ela.

É nesse cotidiano de pequenos fracassos que Adèle Exarchopoulos oferece uma de suas contribuições mais expressivas. Em vez de recorrer continuamente a explosões emocionais, a atriz constrói Garance por meio de gestos discretos, lapsos, atrasos e momentos de vulnerabilidade que revelam uma deterioração gradual. Existe algo particularmente doloroso na maneira como a personagem consegue manter o humor mesmo quando suas atitudes produzem consequências cada vez mais graves. Essa combinação de espontaneidade e negligência consigo mesma impede que ela seja reduzida a uma vítima passiva ou a uma figura moralmente condenável. A interpretação preserva suas contradições e permite que a empatia surja sem exigir que o espectador aprove suas escolhas.

O filme, entretanto, perde parte dessa complexidade quando tenta organizar a trajetória da protagonista segundo convenções dramáticas mais tradicionais. A doença grave de sua irmã introduz um componente melodramático que nem sempre se integra organicamente à narrativa, enquanto determinadas relações e conflitos desaparecem antes de alcançar o desenvolvimento necessário. Pauline, em especial, corre o risco de ser reduzida à figura da companheira que oferece apoio incondicional, como se amar Garance significasse suportar indefinidamente as consequências de sua dependência. A intenção de demonstrar solidariedade é compreensível, mas a abordagem simplifica uma questão fundamental: afeto e empatia não eliminam a necessidade de limites, e a dependência também pode comprometer a reciprocidade dentro de uma relação.

Apesar dessas fragilidades, Mais um Dia permanece uma observação sensível sobre uma condição que frequentemente se esconde atrás de comportamentos socialmente tolerados. Jeanne Herry demonstra maior domínio quando acompanha a repetição dos pequenos constrangimentos e a desorganização progressiva da vida de Garance do que quando procura conduzi-la a confrontos emocionais mais convencionais. Algumas subtramas são apressadas, e nem todas as relações recebem a atenção que merecem, mas a força da protagonista e as escolhas da diretora sustentam uma experiência envolvente. O filme não oferece uma resposta simples para a dependência nem transforma o sofrimento em uma lição edificante. Seu mérito está em reconhecer que, às vezes, a vida não desmorona de uma só vez: ela se desfaz aos poucos, em mais um dia que parece igual aos anteriores.

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