M*A*S*H

() ‧

A anarquia cirúrgica de "M*A*S*H"

M*A*S*H é o tipo de filme que captura, com humor ácido e irreverência, o espírito de um tempo marcado pela contestação e pelo desencanto com instituições tradicionais. Apesar de ambientado na Guerra da Coreia, o longa de Robert Altman dialoga diretamente com os traumas e a insatisfação popular da época da Guerra do Vietnã. Em vez de confrontar o inimigo estrangeiro, a sátira se volta para o absurdo do sistema militar e da guerra em si.

A narrativa acompanha três cirurgiões militares — Hawkeye, Trapper John e Duke — que, alocados em um hospital móvel de campanha, encontram na zombaria, no caos e na insubordinação uma forma de suportar os horrores diários do front. Suas atitudes não apenas desafiam a hierarquia, como também expõem o vazio moral de um sistema que valoriza a disciplina mais do que a vida humana.

O contraste entre o humor escrachado e a violência explícita das cenas cirúrgicas reforça a proposta de crítica feroz. A sequência inicial, com helicópteros trazendo soldados mutilados ao som de “Suicide Is Painless”, já deixa claro o tom sarcástico e sombrio de M*A*S*H. O hospital, por mais caótico que seja, acaba se tornando um espaço mais lúcido que o próprio campo de batalha, invertendo a lógica da guerra.

Altman emprega uma estrutura fragmentada e improvisada, com múltiplos diálogos sobrepostos e cenas que parecem brotar do acaso, como se a vida naquele hospital fosse movida por um descontrole calculado. Essa estética anárquica ajuda a construir a sensação de que não há um fio condutor tradicional — mas sim uma coleção de absurdos que, juntos, compõem o retrato do delírio bélico.

Entre escândalos sexuais, jogos de futebol americano e ataques à moralidade conservadora, o filme também escancara o machismo do ambiente militar. A personagem Hot Lips Houlihan, vivida por Sally Kellerman, é alvo de humilhações públicas e representa o olhar masculino dominante da época. Ainda assim, a atriz se destaca e sua presença permanece icônica em meio à gritaria dos colegas de cena.

Se M*A*S*H parece perder parte de sua força satírica na reta final, cedendo ao besteirol, isso não diminui o impacto de sua proposta. O filme rompe com o formato clássico dos filmes de guerra e inaugura um tipo de comédia mais cínica e desestruturada, que influenciaria o cinema posterior — além de gerar a bem-sucedida série de TV, que manteve viva a irreverência dos personagens por mais de uma década.

Mais do que um produto de seu tempo, M*A*S*H é um manifesto visual contra a glorificação da guerra e contra qualquer tipo de autoridade acrítica. Com seu humor corrosivo, ele oferece um alívio bem-vindo diante do horror, sem nunca deixar de lembrar que, no centro de tudo, está a tragédia da existência humana reduzida a pedaços sobre uma mesa de operação.

ONDE ASSISTIR

AUTOR

Felipe Fornari

OUTROS INDICADOS AO OSCAR