Matilda

(1996) ‧ 1h38

Uma heroína para quem nunca foi ouvido

Felipe Fornari

Matilda é um daqueles raros filmes familiares que compreendem perfeitamente o universo infantil sem tratá-lo com condescendência. Adaptando a obra de Roald Dahl, Danny DeVito constrói uma fábula divertida, sombria e afetuosa sobre uma menina extraordinária cercada por adultos incapazes de reconhecer seu valor. O resultado é uma aventura que diverte as crianças, mas também conversa diretamente com qualquer espectador que já tenha se sentido incompreendido.

Desde os primeiros minutos, o longa apresenta Matilda como uma criança cuja inteligência parece um incômodo para todos ao seu redor. Enquanto seus pais preferem a televisão, a superficialidade e os pequenos golpes do cotidiano, ela encontra nos livros uma forma de escapar da mediocridade que a cerca. A oposição entre esses mundos é retratada com um humor ácido que transforma os adultos em caricaturas exageradas, mas nunca deixa de revelar algo verdadeiro sobre a falta de atenção e respeito que muitas crianças enfrentam.

Essa visão se torna ainda mais evidente quando Matilda chega à escola e encontra a terrível diretora Trunchbull. Interpretada com energia por Pam Ferris, a personagem é uma das grandes vilãs do cinema infantil dos anos 1990. Sua crueldade é tão absurda e exagerada que provoca risadas ao mesmo tempo em que simboliza os abusos de autoridade que tantas crianças identificam em figuras adultas. Como toda grande antagonista de contos de fadas, ela é assustadora sem deixar de ser fascinante.

Em contraste surge a doce professora Honey, que representa tudo aquilo que falta na vida da protagonista: acolhimento, incentivo e compreensão. A relação entre as duas dá ao filme seu coração emocional, mostrando que um único adulto disposto a ouvir e acreditar em uma criança pode fazer uma enorme diferença. É uma mensagem simples, mas transmitida com sinceridade e sensibilidade.

Os elementos fantásticos entram na narrativa de forma natural, funcionando menos como espetáculo e mais como uma extensão dos sentimentos de Matilda. Seus poderes refletem o desejo de alguém que passou a vida sem voz finalmente encontrar uma maneira de reagir às injustiças que a cercam. Nesse sentido, o filme transforma fantasia em ferramenta de emancipação, sem jamais perder o tom leve e divertido.

A direção de Danny DeVito demonstra grande afinidade com o material. Assim como em obras como A Guerra dos Roses, ele encontra humor em famílias disfuncionais e personagens moralmente questionáveis, mas aqui equilibra o sarcasmo com uma ternura constante. A estética colorida, os enquadramentos criativos e o ritmo ágil ajudam a construir uma atmosfera que oscila entre o conto infantil e a comédia de humor ácido.

Décadas após seu lançamento, Matilda continua encantadora porque respeita a inteligência de seu público. Ao invés de idealizar a infância, o filme reconhece suas dificuldades, seus medos e suas frustrações, mas também celebra a imaginação, a curiosidade e a capacidade de resistência das crianças. É uma obra divertida, emocionante e surpreendentemente madura, que permanece tão relevante quanto quando foi lançada.

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