Ambientado na década de 1980, Minari: Em Busca da Felicidade acompanha a trajetória de uma família coreano-americana que deixa a Califórnia em busca de um sonho rural no Arkansas. O que poderia soar como uma narrativa clássica sobre imigração e sobrevivência econômica se transforma em algo muito mais íntimo: um retrato sensível sobre pertencimento, memória e os pequenos rituais que sustentam a vida familiar em tempos de incerteza.
O diretor Lee Isaac Chung constrói o filme a partir de lembranças pessoais, o que se reflete na naturalidade com que a infância é evocada. O olhar do pequeno David conduz a experiência, captando com precisão sensorial os detalhes do cotidiano, o calor sufocante dentro do carro, a vastidão silenciosa do campo, os momentos de tédio e descoberta que definem o crescimento. Essa perspectiva infantil confere ao longa um tom agridoce que equilibra nostalgia e vulnerabilidade.

No centro da narrativa está Jacob, vivido com intensidade contida por Steven Yeun, um homem que deposita todas as suas esperanças na terra que tenta cultivar. Sua obstinação em construir algo próprio revela não apenas ambição, mas também o peso de uma responsabilidade que ameaça consumir sua estabilidade emocional e conjugal. Em contraponto, Monica, interpretada com dignidade silenciosa por Han Ye-ri, representa a saudade do lar deixado para trás e o medo constante de que o sonho do marido custe caro demais à família.
A chegada da avó Soon-ja, em uma atuação memorável de Youn Yuh-jung, altera a dinâmica doméstica e introduz uma energia ao mesmo tempo cômica e profundamente afetiva. É através dela que o filme conecta tradição e adaptação, como se a cultura coreana atravessasse oceanos para fincar raízes naquele solo estrangeiro. Sua presença aproxima David de um universo que ele ainda não compreende totalmente, mas que passa a reconhecer como parte essencial de sua identidade.
O simbolismo da erva minari, resistente, capaz de crescer em condições adversas, atravessa a narrativa como metáfora delicada sobre resiliência e esperança. Assim como a planta, a família precisa aprender a sobreviver em um terreno instável, onde frustrações financeiras, conflitos conjugais e medos silenciosos se acumulam. O roteiro evita grandes explosões dramáticas, preferindo observar como pequenas tensões do cotidiano moldam lentamente os laços familiares.

Interessante notar que, apesar do contexto histórico, o filme não se concentra diretamente em conflitos raciais, optando por um retrato mais introspectivo da experiência imigrante. A sensação de isolamento da família é tamanha que o mundo externo parece distante, quase irrelevante diante das batalhas travadas dentro de casa. O foco permanece na luta contra o clima, a escassez e as fragilidades emocionais que surgem quando o sonho americano se revela mais árduo do que o esperado.
Com sua fotografia banhada por luz natural e uma narrativa de ritmo contemplativo, Minari transforma uma história particular em algo universal. É um filme que fala sobre plantar sementes, de sonhos, de memórias, de afeto, mesmo quando o solo parece incerto. Ao final, permanece a sensação de que crescer, assim como a minari, é um processo silencioso, persistente e profundamente humano.







