Mountainhead

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"Mountainhead": Corações de pedra

Em Mountainhead, o diretor Jesse Armstrong — conhecido por Succession — expande seu talento ácido do universo corporativo televisivo para um filme. Aqui, ele nos confina quatro bilionários da tecnologia numa mansão gelada no topo de uma montanha enquanto o mundo desmorona lá fora. O resultado é uma sátira implacável e claustrofóbica que não economiza na crítica à elite que molda (e destrói) o planeta de acordo com seus próprios interesses.

A trama acontece com uma tensão crescente: enquanto a crise global explode, impulsionada pelas próprias criações desses homens, eles trocam farpas e pitches de aplicativos como se estivessem numa rodada de negócios qualquer. Jason Schwartzman brilha como o anfitrião “Souper”, figura patética e bajuladora em busca de um investimento bilionário. Mas o foco recai mesmo sobre Venis (Cory Michael Smith), um bilionário à la Elon Musk, cuja nova ferramenta de IA desencadeou uma onda global de violência e desinformação.

Mountainhead é, acima de tudo, um estudo sobre poder e responsabilidade — ou melhor, sobre a ausência total de ambos. Enquanto o personagem de Ramy Youssef parece carregar uma fagulha de consciência ética, o restante do grupo está imerso numa mistura de delírios de grandeza, egocentrismo e imortalidade tecnológica. Steve Carell, como o canceroso “Papa Bear”, entrega um desempenho que oscila entre ternura e uma frieza assustadora, simbolizando o vazio moral dessas figuras.

A mansão onde se passa quase todo o filme não é apenas cenário, mas extensão desses homens: fria, desumanizada, sem janelas para o mundo real. Há momentos em que a sátira flerta com o absurdo — como o ritual de pintar valores líquidos no peito com batom — mas Armstrong sabe equilibrar o grotesco e o ridículo com uma precisão cirúrgica. É o tipo de humor ácido que provoca mais incômodo que riso.

Apesar do ritmo mais verborrágico do que explosivo, Mountainhead é fascinante justamente por essa verborragia. O roteiro é recheado de jargões tech-bro, debates filosóficos de conveniência e uma constante sensação de que todos ali estão performando intelecto, não exercendo-o. São homens que dominaram o mundo sem nunca amadureceram emocionalmente — e isso, mais do que qualquer IA, é o verdadeiro terror do filme.

Cory Michael Smith se destaca com um Venis tragicômico, vulnerável sob camadas de arrogância. Seu desempenho revela a solidão e insegurança por trás do império que criou, tornando o personagem mais que uma caricatura. Carell, por sua vez, confirma mais uma vez sua capacidade de navegar entre o drama e a sátira com maestria. É um elenco que parece se deleitar com a oportunidade de interpretar homens detestáveis.

Mountainhead talvez não traga nenhuma revelação inovadora sobre os perigos do poder concentrado nas mãos erradas, mas sua execução precisa e seu humor sombrio o tornam um comentário afiado sobre a nossa era. Não é um filme sutil, mas tampouco o são os tempos em que vivemos — e Armstrong parece entender isso melhor do que ninguém.

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