Mr. Nobody Against Putin

(2025) ‧ 1h30

"Mr. Nobody Against Putin": Educar sob vigilância

Felipe Fornari

Mr. Nobody Against Putin acompanha o cotidiano aparentemente banal de Pavel Talankin, um professor de uma pequena cidade industrial nos Urais, para revelar um processo silencioso e profundamente perturbador: a transformação da escola em uma extensão direta da propaganda estatal russa. O documentário parte do espaço da educação, tradicionalmente associado ao pensamento crítico e à formação, para mostrar como ele pode ser capturado, distorcido e usado como ferramenta de guerra.

Talankin é apresentado não como um herói clássico, mas como alguém comum, afetuoso e profundamente ligado ao lugar onde vive. Karabash, marcada por poluição extrema e poucas perspectivas, surge através do olhar dele como um lar possível, cheio de vínculos e memória. Essa relação afetiva com a cidade torna ainda mais dolorosa a constatação de que o ambiente ao seu redor começa a se tornar irreconhecível à medida que a invasão da Ucrânia avança e o discurso oficial se infiltra em todos os espaços.

Dentro da escola, Pavel se destaca por incentivar a expressão individual e criar um espaço de acolhimento para seus alunos. Essa postura logo entra em choque com a nova ordem imposta pelo Estado, que exige lealdade, repetição de slogans e adesão explícita à ideologia governamental. O filme observa com atenção como colegas e estudantes reagem de maneiras distintas: alguns aderem com entusiasmo, outros com resignação, enquanto muitos simplesmente tentam sobreviver ao novo clima de vigilância.

Há momentos em que o documentário adota um tom quase irônico, especialmente no início, lembrando o humor desconfortável de séries como The Office ou Parks and Recreation. Essa leveza inicial, no entanto, serve apenas para ampliar o impacto da virada: aos poucos, o cotidiano se militariza, os rituais patrióticos se tornam obrigatórios e a presença da guerra passa a moldar comportamentos, afetos e expectativas de futuro.

Um dos aspectos mais fortes de Mr. Nobody Against Putin é mostrar como a propaganda não se manifesta apenas em discursos grandiosos, mas em pequenas exigências diárias. Aulas são filmadas para comprovar adesão ideológica, estudantes repetem falas prontas e o tempo dedicado à doutrinação substitui o aprendizado real. Talankin registra tudo como forma de resistência, mesmo ciente dos riscos crescentes, afirmando em certo momento que ama seu trabalho, mas se recusa a ser uma peça do regime.

O filme também constrói um contraste inquietante entre figuras que resistem silenciosamente e aquelas que prosperam sob o novo sistema. Enquanto Pavel se torna cada vez mais isolado e ameaçado, outros professores encontram reconhecimento e recompensas por sua fidelidade ao discurso oficial. Essa assimetria expõe como o autoritarismo reorganiza valores e premia a obediência em detrimento da ética.

Ainda que o documentário pouco explore a perspectiva ucraniana algo que poderia enriquecer o panorama histórico, especialmente quando pensamos em obras como 2000 Meters to Andriivka, sua força está em evidenciar o custo interno da guerra. Ao acompanhar jovens prestes a serem enviados ao front e famílias forçadas ao silêncio, Mr. Nobody Against Putin revela como a violência do conflito ultrapassa as linhas de combate e corrói, de dentro para fora, a própria ideia de futuro de uma sociedade.

ONDE ASSISTIR

OUTROS INDICADOS