Quando Jorge Furtado diz que gosta de fazer filmes diferentes entre si, Muito Prazer parece surgir como a prova mais recente de que não há fórmula capaz de aprisionar sua criatividade. O longa é bastante diferente de O Homem Que Copiava ou Saneamento Básico, o Filme, mas carrega algo essencialmente furtadiano: a liberdade de experimentar, o humor inteligente e uma disposição quase irreverente para transformar situações absurdas em comentários sobre o mundo ao redor.
A premissa já anuncia esse espírito. Rubem herda um motel que imaginava abandonado e encontra Grace vivendo ali, enquanto os dois tentam recuperar o estabelecimento e descobrir o que fazer com os sentimentos que surgem entre eles. Quando Nalva ajuda com a ideia de comercializar gravações feitas por câmeras escondidas nos quartos, a história mergulha de vez no terreno da comédia criminal, acumulando situações cada vez mais improváveis sem perder a clareza sobre aquilo que pretende satirizar.

O mais impressionante é como Furtado consegue fazer esse absurdo parecer natural. O roteiro se movimenta entre romance, humor, crime e metalinguagem com uma leveza rara, encontrando graça justamente na maneira como seus personagens tentam racionalizar decisões completamente insanas. Há uma inteligência especial nas piadas, muitas vezes escondida em diálogos aparentemente banais, e uma série de reviravoltas que mantém a narrativa permanentemente disposta a surpreender. O filme sabe, inclusive, guardar algumas de suas melhores cartas para o momento certo.
E o elenco entende perfeitamente esse jogo. Daniel de Oliveira conduz Rubem com uma ingenuidade que combina com o absurdo crescente da situação, enquanto Luisa Arraes encontra em Grace uma personagem fascinante, imprevisível e cheia de camadas. Existe algo quase hipnótico na maneira como a atriz constrói essa mulher que parece sempre esconder alguma coisa, e a relação entre os dois funciona porque o filme não precisa transformá-la imediatamente em um romance convencional. Samantha Jones completa o trio com uma energia cômica irresistível, ajudando a manter o caos sob controle.
Por trás das risadas, Muito Prazer também encontra espaço para uma crítica social bastante pertinente. A exploração da intimidade alheia, a transformação da privacidade em mercadoria e a necessidade desesperada de encontrar formas de sobreviver financeiramente ganham contornos cada vez mais atuais. O mérito está em nunca transformar essas questões em discursos explicativos: Furtado deixa que elas apareçam naturalmente dentro da própria engrenagem da comédia, fazendo com que o espectador ria primeiro e pense um pouco depois.

É justamente nessa mistura que o filme revela sua maior qualidade. Mesmo quando exagera deliberadamente, existe uma sensibilidade por trás da provocação. O humor não serve apenas para criar situações engraçadas, mas para observar personagens contraditórios, desejos estranhos e relações que dificilmente caberiam em uma narrativa mais convencional. E a direção encontra prazer em brincar com a própria linguagem cinematográfica, fazendo da construção do filme parte da piada e, ao mesmo tempo, parte de sua reflexão.
Muito Prazer é uma comédia que parece ter sido feita por alguém que ainda se diverte genuinamente com a possibilidade de fazer cinema. Alucinada, afiada, divertida e surpreendente, a produção mostra que Jorge Furtado continua interessado em experimentar mesmo depois de tantos anos de carreira. Mais do que simplesmente retomar características de seus trabalhos anteriores, o diretor as reorganiza em algo novo, contemporâneo e deliciosamente imprevisível. É cinema brasileiro com personalidade — e, sobretudo, com prazer em ser cinema.








