Saneamento Básico, o Filme

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“Saneamento Básico, o Filme”: Ficção, fossa e farpas

Ao abordar uma vila que só consegue verba pública se produzir um filme de ficção, Saneamento Básico, o Filme não apenas abraça o absurdo da burocracia brasileira — ele a escancara com inteligência, ironia e um senso de humor que poucas vezes o cinema nacional soube dosar tão bem. O longa de Jorge Furtado transforma a precariedade em potência criativa e faz disso um comentário mordaz sobre o Brasil real, onde improviso é regra e fazer cinema é quase um milagre.

Logo de início, o filme quebra convenções com uma narração que se sobrepõe aos logos de patrocinadores, como se dissesse: “vamos brincar com tudo isso aqui”. Essa metalinguagem é só o primeiro passo numa espiral de reflexões disfarçadas de comédia. A construção de um “filme dentro do filme” permite que Furtado satirize desde os meandros da política até os vícios do próprio fazer cinematográfico — tudo com ritmo ágil, personagens cativantes e uma trama que, por mais absurda que pareça, soa tristemente plausível.

A dupla central vivida por Fernanda Torres e Wagner Moura é o fio condutor desse caos organizado. Eles encarnam cidadãos comuns tentando burlar um sistema que, por si só, não deveria passar de uma ficção. O roteiro se diverte com a ingenuidade e a criatividade dos personagens, ao mesmo tempo em que alfineta cineastas elitistas, burocratas e empreiteiros interesseiros. É uma comédia que diverte, mas que nunca abandona sua camada crítica.

Destaque para os pequenos momentos que ajudam a construir o retrato carinhoso da comunidade de Linha Cristal — um microcosmo do Brasil — com seus sotaques carregados, suas rivalidades políticas e seus dilemas cotidianos. A cena do “duelo automotivo” entre os veículos dos personagens de Tonico Pereira e Paulo José, por exemplo, sintetiza em poucos minutos toda a tensão simbólica entre poder e tradição, entre modernidade e resistência.

Há exageros, claro. Certas soluções narrativas soam forçadas ou apressadas, como o surgimento milagroso de uma moto cara para resolver um problema financeiro, ou o uso gratuito de alguns elementos apenas por efeito cômico. Mas até nesses excessos o filme parece estar rindo de si mesmo — o tal “monstro da fossa” talvez seja só um espelho deformado da nossa realidade já bastante grotesca.

Tecnicamente, Saneamento Básico, o Filme é um trabalho muito bem realizado, com fotografia limpa, montagem dinâmica e uma trilha sonora que reforça o caráter caricatural e ao mesmo tempo afetivo da vila. Jorge Furtado conduz tudo com a leveza de quem confia na inteligência do público, mesmo tratando de um tema tão sério quanto o acesso a saneamento básico — ou a sua falta crônica.

No fim das contas, o filme é um manifesto disfarçado de piada. Ele nos faz rir, mas também pensar: até quando o Brasil vai viver de improviso? E por que a arte, tantas vezes, precisa dar voltas para tocar em assuntos tão essenciais? Saneamento Básico, o Filme responde essas perguntas com ironia, empatia e uma boa dose de nonsense — como só o bom cinema sabe fazer.

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