Mundurukuyü – A Floresta das Mulheres Peixe

(2024) ‧ 1h12

Mundurukuyü: Quando a floresta também é família

Felipe Fornari

Mundurukuyü – A Floresta das Mulheres Peixe encontra uma maneira particularmente bonita de falar sobre um povo sem separar cultura, território e memória. Às margens do Tapajós, a comunidade Munduruku de Sawre Muybu apresenta seu cotidiano enquanto recupera histórias ancestrais que atravessam gerações. Mais do que registrar costumes, o documentário procura mostrar uma visão de mundo na qual a floresta não aparece como simples paisagem, mas como parte de uma existência coletiva.

O filme ganha força justamente porque nasce de um olhar interno. As diretoras Aldira Akay Munduruku, Beka Saw Munduruku e Rilcélia Akay Munduruku não precisam traduzir sua comunidade para um espectador externo a partir de categorias convencionais. Elas filmam pessoas, rituais, conversas e práticas que pertencem ao próprio universo cultural, enquanto o cacique Juarez Saw Munduruku compartilha narrativas sobre a origem do povo, do rio e dos animais. O resultado possui algo de transmissão oral transformada em linguagem cinematográfica.

Essa dimensão mítica é um dos elementos mais interessantes da obra. As histórias sobre seres humanos que se transformam em animais ou sobre a origem do Tapajós não aparecem como folclore distante, mas como parte de uma compreensão viva do mundo. A relação entre os humanos e a natureza ganha, assim, uma dimensão familiar: destruir a floresta significa também atingir aquilo que constitui a própria comunidade. É uma perspectiva que amplia o debate ambiental para além dos números, das áreas desmatadas e das disputas territoriais.

Ao mesmo tempo, Mundurukuyü – A Floresta das Mulheres Peixe não se limita à denúncia. Há espaço para a vida cotidiana, para os cuidados com a saúde, para a formação escolar, para a pesca e para momentos de celebração. Essa escolha é importante porque impede que os Munduruku sejam reduzidos à condição de vítimas de invasões e ameaças. A resistência existe, mas existe também uma cultura em pleno funcionamento, preservada e reinventada por uma geração que encontra nas câmeras uma nova ferramenta para continuar contando suas próprias histórias.

A fotografia contribui bastante para essa experiência. O Tapajós e a floresta são registrados com uma beleza que não precisa transformar o território em cartão-postal, enquanto as animações ajudam a materializar visualmente algumas das narrativas míticas. Existe uma relação delicada entre o registro documental e a dimensão imaginativa, fazendo com que passado, presente, natureza e espiritualidade possam coexistir dentro da mesma linguagem.

Talvez o filme pudesse aprofundar justamente algumas das tensões que apresenta. A questão territorial e os riscos provocados pela exploração da região aparecem como um horizonte fundamental, mas por vezes ficam menos desenvolvidos do que o material cultural e mitológico. Da mesma forma, a própria experiência das realizadoras enquanto cineastas indígenas — sugerida desde o início — poderia ocupar um espaço maior na narrativa. São aspectos que poderiam tornar o processo de criação tão interessante quanto aquilo que está sendo registrado.

Ainda assim, Mundurukuyü – A Floresta das Mulheres Peixe encontra valor em algo essencial: permitir que uma comunidade conte sua própria história utilizando uma linguagem contemporânea sem abandonar os modos ancestrais de transmissão do conhecimento. O cinema aqui não substitui a tradição oral; torna-se outra forma de fazê-la viajar. Entre o rio, os peixes, os espíritos, as histórias e a luta pela preservação do território, o documentário constrói um retrato afetivo e político de uma cultura que permanece viva justamente porque continua encontrando novas maneiras de se contar.

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