Não Me Deixe Morrer

(2025) ‧ 1h48

Apesar de uma bela cinematografia, “Não Me Deixe Morrer”, ironicamente, mata todas as possibilidades de uma boa história sobre visagens e enfado diante da burocracia

Emanuela Siqueira

Filme assistido durante o 15º Olhar de Cinema.

Já que estamos no terreno de filmes romenos, complexos em seu humor ácido etc, Não Me Deixe Morrer, estreia de Andrei Epure em longas, faz de tudo para matar a própria proposta. A não ser pelo complexo clima que cria – o que nos mantém diante da tela, esperando qualquer coisa que possa submergir de uma bela cinematografia, culpa de Laurentiu Raducanu –, o diretor apenas joga provocações e tédio.

A premissa do longa é bastante instigante: uma mulher encontra o corpo de uma vizinha para fora do prédio em que vivem. Chama a polícia, uma ambulância e espera pacientemente uma a uma das burocracias que se seguem. Cada um dos profissionais que chega até ela – e o corpo que, incrivelmente, demora para ser retirado dali – propõe algum tipo de enrolação, a confundem com familiares da morta e fazem perguntas desconcertantes. Maria (Cosmina Stratan) parece ter uma vida medíocre como a de todo mundo: trabalha, volta para casa e mantém seu olhar apático. Porém, a morte da vizinha (interpretada pela já conhecida Elina Löwensohn, que aparece pouco mas assustadoramente ótima) é o que passa a movimentar a vida de Maria que se torna obcecada pela visagem (e menos uma assombração) de Isabela, que a visita toda madrugada, pelos cachorros amorosos da morta e até pelo filho esquisitíssimo da mulher. O filme acerta em alguns momentos como o prólogo, os momentos de aproximação da morta e a tentativa de Maria em apaziguar esse espírito que se arrasta e come restos da cozinha durante a madrugada. Inclusive, Não Me Deixe Morrer teria se saído muito bem se tivesse abraçado o cinema de gênero, brincando mais com a fantasmagoria e os planos noturnos, e menos com a crítica social capenga. tentando tirar alguns risos sofridos.

Dialogando com uma direção e roteiro que lembra os tempos áureos de Yorgos Lanthimos e até a estranheza de Aki Kaurismäki, não tenho dúvida que teria dado um ótimo curta-metragem, uma versão mais enxuta de uma história bem filmada. Porém, Não Me Deixe Morrer acaba com um roteiro embananado que pesa a mão na crítica ácida sobre burocracia e descaso no mundo contemporâneo, e acaba por não deixar muita coisa para quem assiste além do enfado.

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