Nicholas e Alexandra

(1971) ‧ 3h03

30.11.1971

"Nicholas e Alexandra": O fim de um império em câmera lenta

Inspirado na obra de Robert K. Massie, Nicholas e Alexandra propõe uma grandiosa reconstituição dos últimos anos da dinastia Romanov, com foco na figura do indeciso czar Nicolau II e de sua devota esposa, Alexandra Feodorovna. Dirigido por Franklin J. Schaffner após o sucesso de Patton – Rebelde ou Herói?, o filme se apoia na solenidade da história e no capricho visual para narrar o colapso de uma monarquia diante de um século em ebulição.

A narrativa se inicia em 1904, com o nascimento do herdeiro do trono, o pequeno Alexei, e logo mergulha no turbilhão político e pessoal que assolaria a Rússia e sua corte. As escolhas de Nicolau, relutante em adotar reformas, e a crescente influência do místico Rasputin na vida de Alexandra criam um ambiente de tensão e isolamento que culminará na Revolução Russa de 1917 e na queda brutal do regime czarista.

Michael Jayston interpreta Nicolau com uma rigidez compatível ao seu papel histórico, mas é Janet Suzman quem mais se destaca, oferecendo à czarina Alexandra uma complexidade que oscila entre fragilidade e fé cega. Sua performance lhe rendeu uma merecida indicação ao Oscar, sendo um dos poucos momentos em que o drama íntimo do casal realmente ganha força diante da vastidão dos eventos retratados.

Apesar da imponente duração de mais de três horas, Nicholas e Alexandra tem dificuldade em manter o ritmo. O roteiro abrange mais do que consegue aprofundar: personagens históricos surgem e desaparecem com pouco impacto, e a densidade política, embora presente, cede espaço a uma cadência mais contemplativa do que envolvente. O resultado é um filme admirável na forma, mas distante na emoção.

O ponto alto está, sem dúvida, no trabalho técnico. Os figurinos luxuosos e a direção de arte impecável capturam a opulência de uma corte à beira do abismo. Esses elementos renderam ao filme dois Oscars, ambos merecidos, reforçando seu valor como espetáculo visual, ainda que não consiga gerar o mesmo impacto no campo dramático.

Mesmo com uma ampla campanha publicitária e múltiplas indicações ao Oscar, Nicholas e Alexandra não teve um bom desempenho comercial. Isso talvez se explique pela sua abordagem excessivamente respeitosa, que privilegia a reverência histórica em detrimento da conexão emocional com o público — uma armadilha comum em épicos do período.

No fim, Nicholas e Alexandra é uma obra grandiosa e melancólica, que retrata com reverência a derrocada dos últimos czares, mas que não encontra o mesmo vigor narrativo de outros dramas históricos da época. Seu valor está na recriação minuciosa de um mundo em ruínas, mais do que na empatia com seus protagonistas — figuras tão distantes quanto o império que representam.

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AUTOR

Felipe Fornari

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