No momento em que esta crítica está sendo escrita, a produção Nosso Segredo, dirigida e roteirizada pela atriz e cineasta Grace Passô, recebeu os prêmios de Melhor Longa-Metragem, Melhor Fotografia, para Wilssa Esser, e Melhor Direção de Arte, para Lucas Osório, na 54ª edição do Festival de Cinema de Gramado.
Primeiro longa-metragem dirigido por Grace Passô, o filme é um drama que também se aproxima do suspense, com um tom de realismo fantástico. Ao longo dos 110 minutos de duração, somos conduzidos com maestria por um roteiro construído a partir dos segredos de cada um dos membros de uma família negra de classe média.
A atmosfera do filme é marcada por constante dúvida, medo, inquietação e mistério, elementos que só são revelados ao final da exibição. O que Guto (Flip) faz todas as noites quando sai de casa? Quais são os pensamentos de Suely (Ju Colombo) quando se deita sozinha para dormir? Com quem Tutu (Efraim Santos), o narrador-mirim, conversa através do encanamento? Qual é a natureza da relação entre Anamélia (Marisa Revert) e Lêda (Gláucia Vandeveld)? Qual a razão de Grazi (Jessica Gaspar) ser tão introspectiva e não conseguir chorar? Por que a presença da vizinha Lêda incomoda os membros da família? Quais são as dúvidas e angústias de Gilson (Robert Frank), provocadas pela interação com os passageiros que transporta?

A casa se transforma em protagonista, junto com a mãe, os tios e os filhos e, portanto, também carrega suas próprias dores e dúvidas. O que o teto da casa esconde? Qual é a natureza do líquido de cor alaranjada que escorre, cada vez mais, pelas paredes da casa?
Porém, mesmo diante de questionamentos que pertencem à esfera privada, existe um aspecto que une e aproxima os personagens: o luto por uma partida inesperada. Quando alguém se vai de forma súbita, a sensação é a de que essa pessoa foi arrancada, como a raiz de uma árvore. É por meio da dor que Tutu, o filho caçula da família, com sua atuação doce e comovente, se transforma no elo que aproxima aquela família.
“Tia, a vida é tão difícil!” e “O mundo é injusto?” são apenas algumas das reflexões que ele mobiliza, com uma profundidade filosófica. A dor e a saudade independem de classe e raça, pois são experiências demasiadamente humanas.

A diretora não deixa de abordar o racismo estrutural em algumas passagens da obra, mas demonstra, com firmeza e equilíbrio, que existem situações que uma família negra enfrentará e que serão muito mais difíceis do que para uma família branca. A obra nos faz lembrar que somos um país de maioria negra e que a maioria da população carcerária é composta por jovens negros e com baixa escolaridade.
Quando os sentimentos são reprimidos, a única possibilidade de atravessar a dor e a ausência é fortalecer os laços, a empatia e o diálogo. Fazer-se escutar e estar disposto a escutar os demais é uma possibilidade de trilhar um novo caminho. Se nada será como antes, o que, de fato, permanece? O que fica é o resultado de nossas memórias, lembranças e fantasias.
É sobre aquilo que foi e não existe mais, mas que persiste na saudade.








