O Beijo da Mulher Aranha

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"O Beijo da Mulher-Aranha": Entre grades e glamour

A nova versão de O Beijo da Mulher Aranha chega ao circuito com uma mistura inesperada de prisão política e fantasia musical, trazendo consigo um olhar curioso sobre um clássico já revisitado no cinema e nos palcos. Em vez de perseguir o realismo de outras adaptações como a indicada ao Oscar em 1986, o filme aposta em brilho e grandiosidade, surpreendendo pelo contraste entre o cenário opressivo da ditadura argentina e a extravagância de seus números musicais.

A narrativa acompanha Valentín (Diego Luna), um preso político na Argentina dos anos 1980, que divide cela com Molina (Tonatiuh), um ex-decorador de vitrines condenado por atentado ao pudor. Reconhecido como um homem gay e amante do cinema, Molina escapa da dureza cotidiana narrando a seu companheiro a história de seu musical favorito, estrelado pela diva fictícia Ingrid Luna (Jennifer Lopez). Aos poucos, essa troca cria um vínculo improvável, em que imaginação e sobrevivência caminham lado a lado.

O diretor Bill Condon se move entre dois mundos: o drama de cela, seco e opressivo, e as sequências fantasiosas que explodem em cor e movimento. Se por vezes essa transição parece hesitante, há uma intenção clara de mostrar como a fantasia funciona não como fuga ingênua, mas como ferramenta de resistência. A ambientação política permanece ao fundo, ainda que mais suavizada do que o contexto permitiria, o que pode reduzir a força emocional em alguns momentos.

Quando mergulha nos números musicais, o filme encontra seu terreno mais seguro. Há um delicioso exagero visual que dialoga com os grandes musicais clássicos e um desenho de produção que abraça o artifício sem medo. Lopez surge como uma estrela feita sob medida para esse tipo de espetáculo, compondo uma figura maior que a vida, consciente do pastiche e divertida ao habitá-lo.

Já no espaço fechado da prisão, a dinâmica entre Luna e Tonatiuh sustenta boa parte do drama. Luna transmite firmeza e desgaste com naturalidade, enquanto Tonatiuh investe numa interpretação expansiva, que funciona melhor dentro das sequências imaginadas do que no registro mais contido da realidade. A relação entre os dois personagens ainda assim se constrói com sensibilidade, revelando camadas sem pressa.

Há momentos em que o filme parece dividido entre duas vontades — ser um espetáculo e, ao mesmo tempo, abordar a dor política de maneira contundente. Esse equilíbrio nem sempre é alcançado, e certas escolhas deixam a experiência mais polida do que impactante. Ainda assim, existe algo de fascinante na ousadia de revisitar essa história por meio de uma lente tão pouco previsível no cenário atual.

O Beijo da Mulher-Aranha pode não atingir toda a potência que ambiciona, mas oferece um híbrido raro: um melodrama íntimo vestido como musical exuberante, guiado por uma protagonista em pleno domínio de sua presença. Entre o real e o inventado, o filme reafirma a importância da imaginação como refúgio — e, sobretudo, como gesto de sobrevivência.

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