O Décimo Homem

05.05.2016 │ 15:06

05.05.2016 │ 15:06

Nem sempre a ideia de seguir em frente é a escolha certa quando algo do passado insiste em dar as caras no presente. Em O Décimo Homem, o diretor argentino Daniel Burman retorna a temáticas judias trazendo um homem que, prestes a chegar a meia idade, encontra respostas justamente no passado que insistia em esquecer. Trabalhando com um anti-herói ambientado em uma leve comédia de erros, o diretor mostra outra faceta da capital argentina, percorrendo sete dias no cotidiano judeu e mais pobre da cidade.
Ariel (Alan Sabbagh) é economista e vive em Nova Iorque, ele decide marcar uma ida a Buenos Aires para apresentar a noiva ao pai, o velho Usher (Usher Barilka). O pai de Ariel é conhecido no bairro Once da capital portenha, região de grande população judia e ruas lotadas pelo comércio bastante variado, como um salvador que sempre ampara os irmãos judeus em vária situações, desde organização de velórios até as roupas e a comida do dia a dia. Essa dedicação à religião sempre incomodou Ariel que foi criado pelo pai sozinho mas também ausente sempre que alguém precisava de sua ajuda. Fugindo do destino em Buenos Aires, ao retornar Ariel se depara com inusitadas e divertidas situações que o levam a pensar melhor sobre quem ele é e onde gostaria de estar dali em diante.
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Como em um documentário, O Décimo Homem apresenta com cuidado – e de forma despretensiosa e informal – o dia a dia tanto da fundação de caridade mantida por Usher, até as aventuras de Ariel pelo bairro, frequentando festas e celebrações judias. A câmera de Daniel Ortega balança ao andar pelas ruas lotadas de Once e sabe se posicionar em cantos de ambientes mais íntimos, dando conta de fazer o espectador sentir a ansiedade de Ariel mas também rir das trapalhadas de sua vida. Há também o fator que o longa foi inspirado no Usher verdadeiro (preste atenção no carro que estampa o pôster), o rei do bairro Once, conhecido como um personagem do cotidiano judeu. A figura desse personagem da vida real é onipresente, sem ele nada faria sentido no roteiro, Usher sempre sabe onde Ariel está e em que celular ligar, além de todo o bairro ter alguma conexão com ele.
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Várias opções de Burman são competentes, como por exemplo a escolha de um protagonista anti-herói, acima do peso e totalmente incerto de suas ações. Alan Sabbagh faz um ótimo par com a personagem (quase) muda de Julieta Zylberberg (Relatos Selvagens), os dois personagens constroem uma paixão cheia de erros e situações involuntárias, dando um formato realista e leve para a história de amor pouco convencional e sem muito glamour. Outro grande acerto é a ambientação em um bairro pouco mostrado de Buenos Aires, habitado por muitos imigrantes e mais próximo das realidades latino-americanas, mostrado sem tons de denúncia mas sim de riqueza cultural.
Daniel Burman é comumente comparado a Woody Allen, principalmente pela temática judia envolvendo homens jovens, estabanados e confusos em relação à sua criação dentro da religião. Em O Décimo Homem não é diferente, boa parte dos elementos que formam a filmografia do diretor estão presentes como o sempre protagonista Ariel, a confusão com a vida dentro ou fora da religião, e os conflitos familiares. Mas aqui o protagonista dá a impressão de fechamento de ciclo, assinalando uma espécie de maturidade diante da aceitação de quem ele é e da sua formação como um judeu na Argentina.
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O Décimo Homem é um longa que reafirma o lugar de Daniel Burman no cinema atual argentino, com temáticas que já o identificam e o colocam em lugar de destaque no cinema mundial. Mas além disso, é um filme sobre a aceitação da riqueza e força das raízes formadoras de cada pessoa, pensando que talvez as tradições possam se adaptar às peculiaridades de cada um.
Nota:

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