A Noiva!

(2026) ‧ 2h06

Amor, monstros e caos na Chicago dos anos 1930

Felipe Fornari

Ambientado em uma Chicago marcada pela violência e pelo desencanto da década de 1930, A Noiva! reinventa o mito clássico de Frankenstein ao deslocar o foco para a criatura que sempre foi tratada como coadjuvante da própria existência. Aqui, a “Noiva” deixa de ser apenas um experimento para se tornar o centro de uma narrativa que mistura horror gótico, romance trágico e um espírito quase anárquico (que lembra muito Cruella), refletindo um mundo que a recebe com a mesma brutalidade com que foi criada.

O ponto de partida é conhecido: um monstro solitário deseja companhia e convence um cientista a trazer uma mulher de volta à vida. O que poderia ser apenas uma releitura fiel se transforma, porém, em uma abordagem ousada que questiona a própria ideia de criação e posse. Ao ganhar consciência, a Noiva percebe que não é apenas fruto de um capricho científico, mas uma entidade presa entre o desejo de liberdade e as expectativas de quem a moldou.

A performance central é fundamental para que o filme funcione, e Jessie Buckley (Hamnet: A Vida Antes de Hamlet) abraça o papel com intensidade física e emocional. Sua personagem é feroz, curiosa e profundamente instável, oscilando entre vulnerabilidade e rebeldia em um arco que faz sentido para alguém que literalmente nasceu ontem em um mundo que já a quer enquadrar. Ao lado dela, o monstro se revela menos uma figura ameaçadora e mais um reflexo torto de carência, criando uma dinâmica que mistura ternura e destruição.

Essa relação impulsiona a narrativa para um território inesperado: um romance caótico e explosivo que ecoa histórias de casais fora da lei, como Bonnie e Clyde: Uma Rajada de Balas, em que paixão e violência caminham lado a lado. O filme encontra força justamente nessa mistura de amor doentio e desejo de pertencimento, transformando a jornada da dupla em algo simultaneamente sedutor e perturbador.

Visualmente, A Noiva! aposta em uma estética estilizada que dialoga com o horror clássico sem abrir mão de uma identidade moderna. A direção demonstra confiança ao investir em composições ousadas, figurinos marcantes e sequências que flertam com o onírico, como se a própria mise-en-scène refletisse a natureza artificial, e ainda assim intensamente humana, de sua protagonista.

O roteiro nem sempre consegue equilibrar todos os fios que propõe, especialmente quando tenta expandir o universo para além do casal central. Algumas subtramas surgem e desaparecem sem o mesmo impacto dramático, dando a sensação de que o filme quer abraçar mais ideias do que consegue desenvolver plenamente. Ainda assim, essa ambição faz parte do seu charme indomável.

No fim, A Noiva! se destaca como uma releitura vibrante e emocionalmente carregada de um dos mitos mais revisitados do cinema. Entre excessos, riscos narrativos e momentos de genuína potência dramática, o longa encontra beleza justamente em sua imperfeição, oferecendo uma história de amor monstruosa que pulsa com vida própria.

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