O Diabo Não Tem Descanso

(2024) ‧ 0h31

"O Diabo Não Tem Descanso": Entre a fé, o medo e a resistência cotidiana

Em apenas 31 minutos, O Diabo Não Tem Descanso constrói um retrato sufocante e profundamente humano de uma América pós-Roe vs. Wade, concentrando-se em um único dia dentro de uma clínica de aborto em Atlanta. A escolha por um recorte temporal tão específico não limita o alcance do documentário; pelo contrário, transforma a rotina em síntese de um conflito político, religioso e social que parece não ter fim. A câmera observa sem interferir, permitindo que a tensão se acumule naturalmente em cada gesto, palavra e silêncio.

No centro do filme está Tracii, chefe de segurança da clínica, uma mulher cristã responsável por proteger pacientes e funcionários de um ambiente hostil e constantemente vigiado por manifestantes. Sua rotina começa cedo, com inspeções de segurança, acolhimento às pacientes e uma oração que antecipa o peso emocional do dia. O documentário encontra nela uma figura poderosa justamente por escapar de simplificações: Tracii compartilha a fé com os manifestantes do lado de fora, mas vive essa crença a partir da empatia, não do julgamento.

A tensão cresce à medida que o filme revela os obstáculos impostos às pacientes, desde insultos gritados por megafones até as limitações legais que obrigam funcionárias a negar atendimento a mulheres que ultrapassaram o limite imposto pela lei. Médicas e técnicas falam do medo constante de represálias jurídicas, enquanto decisões médicas se transformam em dilemas morais e legais. Tudo acontece de forma banalizada, como se esse estado de exceção já fosse parte do cotidiano.

O relato pessoal de Tracii adiciona uma camada emocional devastadora ao documentário. Ao compartilhar sua própria experiência com o aborto e perdas posteriores, ela encarna as contradições que o filme expõe com tanta clareza. Conhecendo os manifestantes pelo nome, ela reconhece suas histórias, suas hipocrisias e, sobretudo, a distância entre um discurso religioso baseado no amor e outro sustentado pela condenação.

Sem recorrer a discursos didáticos ou entrevistas explicativas, O Diabo Não Tem Descanso aposta na observação como forma de denúncia. O documentário entende que não há respostas simples para um debate tão complexo e, justamente por isso, se recusa a oferecer soluções fáceis. O que emerge é um retrato doloroso de um país fragmentado, onde a compaixão luta diariamente para sobreviver em meio ao ruído, à intolerância e ao medo — e onde, como o próprio filme sugere, o diabo realmente não descansa.

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AUTOR

Felipe Fornari

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