O Fugitivo

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A corrida contra o erro e a máquina do Estado

Em O Fugitivo, Andrew Davis entrega um raro exemplo de thriller adulto que combina ritmo implacável, tensão constante e personagens complexos. A premissa é simples e direta: um homem inocente precisa provar sua inocência enquanto foge de um sistema que já o condenou. O que diferencia o filme de tantos outros do gênero é a precisão com que transforma essa corrida desesperada em um retrato da paranoia institucional e da fragilidade da verdade diante das aparências.

Harrison Ford constrói Richard Kimble como um herói relutante, movido não pela aventura, mas pela necessidade moral de sobreviver e limpar seu nome. Sua interpretação é marcada pela exaustão física e emocional, fazendo com que cada fuga, cada improviso médico e cada decisão arriscada pareçam nascer do instinto, não do espetáculo. Kimble não quer ser caçado, não quer vencer ninguém — ele apenas se recusa a aceitar uma injustiça.

Do outro lado está o inesquecível Samuel Gerard, vivido por Tommy Lee Jones em uma atuação que se tornou referência no cinema dos anos 1990. O personagem poderia facilmente cair no estereótipo do agente implacável, mas ganha nuances ao ser guiado por um código próprio de ética e profissionalismo. Gerard não é um vilão: ele representa a engrenagem eficiente do sistema, alguém que persegue não por ódio, mas por dever.

A força dramática de O Fugitivo nasce justamente desse embate entre dois homens corretos presos em lados opostos. O roteiro evita soluções fáceis ao mostrar que a verdade não se impõe sozinha; ela precisa ser investigada, reconstruída e defendida. A narrativa avança como um quebra-cabeça, no qual cada pista médica ou detalhe ignorado aproxima Kimble da revelação que o Estado se recusou a enxergar.

A direção de Andrew Davis aposta em locações reais e em uma Chicago viva, movimentada e caótica, transformando a cidade em parte essencial da narrativa. Perseguições em hospitais, ruas lotadas e eventos públicos reforçam a sensação de urgência e imprevisibilidade. Tudo parece palpável, físico, distante da artificialidade que dominaria o gênero nos anos seguintes.

Além do suspense, o filme dialoga com temas mais amplos, como a confiança cega em instituições e a facilidade com que uma narrativa oficial substitui a verdade. O erro judicial não surge como exceção absurda, mas como consequência de pressa, descaso e conveniência política. Nesse sentido, O Fugitivo é menos sobre fuga e mais sobre resistência.

Três décadas depois, o filme permanece exemplar por equilibrar entretenimento e inteligência sem subestimar o espectador. O Fugitivo prova que é possível criar um grande sucesso comercial sustentado por personagens sólidos, tensão bem construída e escolhas narrativas maduras. Um clássico moderno que segue tão envolvente quanto no dia de sua estreia.

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