O Homem Que Sabia Demais (1934)

(1934) ‧ 1h15

Quando Hitchcock encontrou o suspense

Felipe Fornari

Com O Homem Que Sabia Demais, Alfred Hitchcock parece finalmente reunir muitas das ideias que vinha experimentando ao longo de sua fase britânica e transformá-las em um suspense de identidade própria. Bob e Jill Lawrence estão de férias nos Alpes Suíços com a filha Betty quando testemunham o assassinato de Louis Bernard, um homem que, antes de morrer, revela informações sobre um atentado político planejado para Londres. Quando Betty é sequestrada para garantir o silêncio dos pais, aquilo que começa como uma intriga de espionagem passa a envolver algo muito mais íntimo: duas pessoas comuns tentando recuperar a filha enquanto carregam uma informação capaz de impedir uma tragédia.

A eficiência da premissa está justamente em colocar seus protagonistas diante de duas responsabilidades incompatíveis. Procurar as autoridades pode significar a morte de Betty, enquanto permanecer em silêncio coloca outra vida em risco. Hitchcock não precisa transformar Bob e Jill em investigadores extraordinários para conduzir a história; eles avançam porque não possuem alternativa. Essa presença de indivíduos comuns involuntariamente arrastados para uma conspiração maior do que eles se tornaria uma das estruturas fundamentais do cinema do diretor, aparecendo posteriormente em filmes como Os 39 Degraus e Intriga Internacional.

Jill é especialmente importante para que O Homem Que Sabia Demais ultrapasse as convenções mais simples do gênero. Sua habilidade como atiradora, apresentada aparentemente como um detalhe durante as férias, retorna de maneira decisiva no desfecho, enquanto sua participação na tentativa de impedir o assassinato transforma a personagem em agente fundamental da narrativa. Hitchcock constrói essas informações com inteligência, fazendo elementos introduzidos casualmente ganharem novas funções conforme a ameaça aumenta. O suspense nasce justamente dessa preparação cuidadosa, na qual o espectador percebe aos poucos que quase nada foi mostrado por acaso.

Peter Lorre também contribui enormemente para a personalidade do filme. Seu Abbott não precisa recorrer constantemente à violência para parecer ameaçador: o comportamento educado, os pequenos gestos e uma inquietante tranquilidade fazem dele uma presença muito mais perturbadora. Hitchcock já demonstra aqui sua preferência por vilões capazes de circular socialmente sem despertar imediatamente suspeitas, substituindo a monstruosidade evidente por uma cordialidade desconfortável. Há algo quase divertido em Abbott, mas o humor jamais elimina a sensação de perigo que acompanha suas aparições.

É no Royal Albert Hall, porém, que o diretor entrega a sequência que melhor anuncia o cineasta que se consolidaria nos anos seguintes. Hitchcock estabelece que o disparo acontecerá em um momento específico da apresentação e passa a trabalhar com aquilo que o público sabe que inevitavelmente ocorrerá. A música deixa de ser mero acompanhamento para participar diretamente da construção dramática, enquanto olhares, movimentos e instrumentos aproximam progressivamente a narrativa do instante fatal. Quando Jill percebe que seu grito pode interferir no atentado, toda a tensão acumulada converge para uma ação extremamente simples e extraordinariamente eficaz.

O último ato troca a elegância dessa sequência por um confronto muito mais físico, com a polícia cercando o esconderijo dos criminosos e uma longa troca de tiros tomando conta das ruas e dos edifícios. Embora essa parte seja menos sofisticada do que o suspense construído no concerto, ela mantém a urgência ao devolver Betty ao centro do perigo. Hitchcock ainda encontra espaço para concluir elementos apresentados anteriormente, especialmente quando Jill precisa utilizar sua habilidade com armas para proteger a filha. A ação pode parecer mais convencional hoje, mas possui uma escala bastante ambiciosa para o cinema britânico do período.

O Homem Que Sabia Demais ainda apresenta algumas irregularidades de ritmo e personagens que poderiam receber maior desenvolvimento, mas representa um salto evidente dentro da filmografia de Hitchcock. Aqui já estão a pessoa comum envolvida em espionagem internacional, o vilão carismático, o humor convivendo com a ameaça, a informação como fonte de perigo e, sobretudo, o suspense construído pela antecipação em vez da surpresa. O próprio Hitchcock retornaria à história em O Homem Que Sabia Demais, de 1956, com recursos e experiência muito maiores, mas esta primeira versão possui a energia de um diretor descobrindo definitivamente como transformar seus interesses em linguagem.

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