Em O Mistério do Número 17, Alfred Hitchcock transforma uma casa abandonada em um labirinto de portas, escadas, sombras e personagens suspeitos. A trama começa quando um vagabundo encontra um cadáver no interior do imóvel e descobre que aquele lugar está ligado a uma quadrilha responsável pelo roubo de um valioso colar. A partir daí, policiais, criminosos e possíveis vítimas se cruzam em uma narrativa que aposta deliberadamente na confusão e na sucessão de reviravoltas.
O roteiro, adaptado livremente da obra de Jefferson Farjeon, é justamente o ponto em que o filme encontra suas maiores dificuldades. Há muitos personagens, identidades pouco claras e informações que parecem surgir mais para alimentar o mistério do que para construir uma investigação realmente envolvente. Com apenas pouco mais de uma hora de duração, O Mistério do Número 17 deveria ser ágil, mas frequentemente parece apressado, como se várias histórias diferentes disputassem espaço dentro da mesma aventura.

É na direção, entretanto, que Hitchcock demonstra estar muito mais interessado. A casa abandonada é explorada como um organismo vivo, e o diretor transforma cada escada, corredor e porta em possibilidade de ameaça. A câmera atravessa os espaços com liberdade, observa o cadáver de maneira inquietante e brinca com aquilo que o espectador consegue ou não enxergar. A influência do expressionismo alemão é evidente no uso de sombras e contrastes, criando uma atmosfera muito mais marcante do que a própria história.
As escadas, recorrentes no cinema de Hitchcock, assumem aqui uma função particularmente importante. Elas não servem apenas para conectar os ambientes, mas também para criar perspectivas e esconder informações. Entre os melhores momentos está a imagem de um casal amarrado a uma estrutura que desaba, deixando os dois suspensos no vazio. É uma situação tão visualmente absurda quanto engenhosa, antecipando o gosto do diretor por colocar seus personagens literalmente à beira de uma queda.
A trama romântica, por outro lado, recebe menos atenção do que deveria. O relacionamento entre o detetive e a jovem envolvida na investigação surge quase como uma obrigação dentro da estrutura do filme, sem tempo suficiente para adquirir verdadeira importância emocional. Hitchcock parece muito mais interessado no movimento dos corpos pelo cenário e na mecânica das perseguições do que na construção de personagens complexos. Isso faz com que a narrativa funcione melhor como exercício de estilo do que como mistério propriamente dito.

O terceiro ato abandona boa parte da atmosfera claustrofóbica para investir em uma perseguição que envolve ônibus, trem e até uma balsa. Algumas soluções são inventivas, especialmente considerando as limitações técnicas do período, e o uso de miniaturas no acidente marítimo acrescenta um prazer artesanal à sequência. Ainda assim, a perseguição não possui a mesma força das grandes fugas que Hitchcock realizaria posteriormente em filmes como Os 39 Degraus e Intriga Internacional. Há energia, mas falta a precisão que transformaria o espetáculo em suspense memorável.
Por isso, O Mistério do Número 17 acaba sendo uma obra irregular, mas curiosa dentro da trajetória de Hitchcock. A história é convoluta, os personagens são pouco desenvolvidos e o romance permanece superficial, enquanto o tom oscila entre o suspense, a aventura e uma espécie de paródia do próprio gênero. Mesmo assim, a experiência revela um diretor cada vez mais interessado em experimentar com câmera, espaço, movimento e tensão visual. Não é um dos grandes filmes de sua fase britânica, mas já contém, entre sombras e escadas, sinais bastante claros do mestre que estava por vir.








