Cuidar de alguém não deveria significar apenas garantir que suas necessidades físicas sejam atendidas, mas também reconhecer a pessoa que existe para além de suas limitações. É a partir dessa ideia que Ryusuke Hamaguchi constrói O Sentido da Vida, um drama que encontra na aproximação entre duas mulheres uma reflexão sobre envelhecimento, dignidade e a importância dos vínculos humanos. Marie-Lou Fontaine dirige uma casa de repouso nos arredores de Paris e tenta implementar um método de cuidado que encontra resistência entre seus funcionários. Sua vida muda quando conhece Mari Morisaki, dramaturga japonesa que enfrenta uma doença terminal. Desse encontro nasce uma amizade que transforma não apenas as duas protagonistas, mas também a maneira como compreendem suas responsabilidades diante do mundo.
Hamaguchi demonstra novamente sua habilidade para construir narrativas nas quais as conversas se tornam verdadeiros acontecimentos dramáticos. A aproximação entre Marie-Lou e Mari não depende de grandes revelações ou de uma sucessão de momentos sentimentalmente calculados. São as trocas de ideias, as divergências e a disposição para ouvir que estabelecem uma intimidade cada vez mais profunda entre elas. Mesmo diante da consciência de que o tempo disponível pode ser curto, o filme não transforma a amizade em uma corrida desesperada contra a morte. Pelo contrário, encontra beleza na possibilidade de duas pessoas se reconhecerem justamente quando suas vidas parecem atravessar momentos de maior fragilidade. O diálogo, aqui, não serve apenas para transmitir informações, mas para revelar como nos transformamos quando alguém nos oferece uma perspectiva diferente da nossa.

A proposta de Marie-Lou de implementar o método Humanitude amplia a discussão para além da relação entre as protagonistas. Ao defender uma abordagem que valoriza o contato visual, a presença emocional e o reconhecimento da individualidade dos pacientes, ela questiona um modelo institucional que frequentemente reduz o cuidado a procedimentos e obrigações. A resistência da equipe, entretanto, não é tratada como um simples obstáculo entre a boa intenção e sua realização. Existem limitações práticas, dificuldades financeiras e conflitos de gestão que tornam a transformação mais complicada do que parece. Hamaguchi compreende que defender uma ideia humanista é apenas o primeiro passo: colocá-la em prática exige negociar, escutar e reconhecer as contradições de um sistema que nem sempre oferece condições para aquilo que considera correto.
Virginie Efira e Tao Okamoto sustentam essa reflexão com atuações de extraordinária sensibilidade. Efira constrói uma Marie-Lou determinada, por vezes autoritária, cuja convicção de estar fazendo o melhor nem sempre a impede de ignorar as dificuldades daqueles que trabalham ao seu lado. Já Okamoto confere a Mari uma serenidade que não elimina o medo ou a vulnerabilidade diante da doença, mas permite que sua personagem encontre espaço para a curiosidade, o humor e a generosidade. A química entre as duas é o coração da produção. Seus encontros nunca parecem organizados apenas para arrancar lágrimas, e a amizade que desenvolvem adquire força justamente porque nenhuma delas precisa abandonar suas particularidades para compreender a outra. O reconhecimento compartilhado no Festival de Cannes é plenamente justificável.
Embora a proximidade da morte atravesse a narrativa, O Sentido da Vida não se rende à ideia de que o sofrimento precisa produzir lições edificantes ou soluções milagrosas. Os personagens secundários também carregam problemas que resistem a respostas fáceis, e o filme reconhece os limites da boa vontade diante de situações que exigem mais do que afeto. A dramaturgia de Mari, as dificuldades enfrentadas por quem cuida de familiares vulneráveis e os impasses administrativos da instituição compõem um universo no qual tornar o impossível possível não significa eliminar todos os obstáculos. Significa encontrar maneiras de agir mesmo quando a realidade não permite uma vitória completa. Essa perspectiva impede que a produção se transforme em um drama inspiracional convencional e preserva sua complexidade moral.

A duração extensa poderia sugerir uma experiência excessivamente contemplativa, mas Hamaguchi conduz as quase três horas e vinte minutos com uma segurança admirável. O ritmo nasce das conversas e da maneira como cada encontro modifica a compreensão dos personagens, enquanto a fotografia de Alan Guichaoua acrescenta luminosidade e vitalidade a uma história que poderia facilmente se tornar sombria. As cores vibrantes contrastam com a fragilidade das situações apresentadas, lembrando que a experiência humana não se resume à dor mesmo quando a perda parece inevitável. Há momentos em que a insistência nos diálogos e nas reflexões ameaça alongar algumas passagens, mas a narrativa raramente perde sua capacidade de envolver. O diretor sabe que a emoção mais duradoura nem sempre nasce de um acontecimento extraordinário, e sim do tempo concedido para que uma relação adquira significado.
Ao final, O Sentido da Vida revela que sua questão central não é como vencer a morte, mas como viver de maneira mais digna enquanto o tempo ainda nos pertence. A amizade entre Marie-Lou e Mari não resolve todos os problemas ao redor delas, tampouco impede a progressão da doença, mas transforma a maneira como ambas enfrentam aquilo que não podem controlar. Hamaguchi realiza um filme profundamente humano, que combina reflexão social, delicadeza emocional e uma confiança rara na capacidade das pessoas de se modificarem por meio do encontro. Em vez de oferecer respostas definitivas sobre o sentido da existência, a obra sugere que ele pode estar na atenção que dedicamos uns aos outros, na disposição para reconhecer a dignidade alheia e nos gestos que permanecem mesmo depois que já não podemos estar presentes. É um cinema generoso e comovente, capaz de encontrar na finitude não apenas tristeza, mas também uma extraordinária afirmação da vida.









