Filme assistido durante o 15º Olhar de Cinema.
Olhe para Mim é daqueles filmes que parecem menos preocupados em contar uma história de maneira convencional e mais interessados em criar uma experiência sensorial. A partir da jornada de Marcelo, um jovem marcado pelo desaparecimento da mãe na infância, o diretor Rafhael Barbosa constrói uma narrativa que flutua entre o real e o imaginário, transformando a dor da ausência em matéria-prima para uma fantasia profundamente brasileira. O resultado é uma obra que exige entrega do espectador, mas que recompensa quem aceita percorrer seus caminhos menos óbvios.
Desde os primeiros minutos, o longa mergulha em uma atmosfera de mistério. Marcelo vive preso a lembranças incompletas e a versões inventadas do passado, como se tentasse preencher um vazio impossível de ser resolvido. Quando conhece Sandra e Ivan, duas figuras que parecem carregar segredos maiores do que revelam, a trama assume a forma de uma viagem física e espiritual. Mais do que um deslocamento geográfico, trata-se de uma travessia emocional rumo a respostas que talvez nem existam.

O aspecto mais fascinante de Olhe para Mim está na maneira como incorpora elementos do imaginário popular nordestino sem transformá-los em simples curiosidades folclóricas. As lendas, os presságios, as criaturas e os símbolos espirituais surgem como extensões naturais daquele universo. O filme trata essas crenças com respeito e sensibilidade, criando uma sensação constante de encantamento que faz com que o sobrenatural pareça apenas mais uma camada da realidade.
Visualmente, a produção impressiona. As paisagens de Alagoas são filmadas com enorme cuidado, revelando uma geografia que raramente ocupa esse lugar de destaque no cinema nacional. Rios, estradas, matas e embarcações ganham uma dimensão quase mítica graças à fotografia e ao desenho sonoro, que trabalham juntos para criar imagens de grande força poética. Há momentos em que o cenário parece conversar diretamente com os personagens, refletindo seus medos, desejos e incertezas.
As atuações também contribuem para a potência da experiência. O estreante Ulisses Arthur transmite a vulnerabilidade de Marcelo sem recorrer a excessos, enquanto Luciano Pedro Jr. confere a Ivan uma presença simultaneamente acolhedora e inquietante. Já Rejane Faria, em mais um trabalho marcante, funciona como um elo entre o terreno e o espiritual, trazendo humanidade a uma personagem cercada por mistérios.

Ao mesmo tempo, o filme nem sempre encontra equilíbrio entre sugestão e clareza. Algumas passagens são tão simbólicas que correm o risco de afastar parte do público, especialmente aqueles que preferem narrativas mais objetivas. Em certos momentos, a sensação é de que o longa se perde um pouco em sua própria construção alegórica, sacrificando a progressão dramática em favor da contemplação e do mistério.
Ainda assim, Olhe para Mim merece reconhecimento pela ousadia e pela personalidade. É um filme que expande fronteiras, misturando fantasia, espiritualidade, terror, road movie e questões identitárias sem se encaixar confortavelmente em nenhuma dessas categorias. Nem todas as escolhas funcionam com a mesma intensidade, mas a beleza de suas imagens, a riqueza de seu universo simbólico e a força de sua proposta fazem desta uma experiência singular dentro do cinema brasileiro contemporâneo.








