Em Os Fabelmans, Steven Spielberg revisita sua própria infância e adolescência, transportando o público para o universo dos anos 1950 e 1960, onde o jovem Sammy Fabelman descobre o amor pelo cinema. Esta não é apenas uma história de amadurecimento, mas uma carta de amor ao cinema e aos pais de Spielberg, que faleceram recentemente. No filme, Spielberg embarca em uma jornada nostálgica e intimista, oferecendo uma nova camada de profundidade às suas memórias de vida.
O filme funciona como uma comédia romântica peculiar: em vez de narrar um romance tradicional, Spielberg constroi uma relação entre Sammy e o cinema. Essa paixão é marcada por momentos de descoberta, separação e reencontro, mostrando como o cinema serviu de refúgio e expressão para o jovem aspirante a cineasta. Há um toque de Cinema Paradiso nessa abordagem, mas, ao contrário de Tornatore, Spielberg mantém a linguagem mais realista e menos poética.

A primeira cena de Os Fabelmans leva Sammy e sua família ao cinema para assistir a O Maior Espetáculo da Terra, e esse momento se torna decisivo para o garoto. Ao recriar uma cena do filme em sua casa, Sammy encontra não só uma forma de terapia para seus medos, mas também a fagulha inicial para seu amor pelo cinema. Com o passar dos anos e suas mudanças de cidade, o interesse de Sammy evolui, e ele começa a fazer filmes cada vez mais sofisticados, demonstrando um talento que prenuncia o futuro cineasta.
A segunda metade do filme se passa na Califórnia, onde Sammy e sua família enfrentam desafios pessoais e culturais. Nesse novo ambiente, ele se depara com situações típicas dos dramas adolescentes, incluindo bullying antissemita e um romance inesperado com Monica, que o vê como um “exótico”. Essas experiências moldam sua perspectiva e identidade, enquanto ele se aproxima de forma única de suas próprias raízes e de sua paixão pela arte cinematográfica.
O elenco de Os Fabelmans é composto de rostos conhecidos, mas cuidadosamente escolhidos para priorizar o talento interpretativo. Michelle Williams surpreende como Mitzi, uma mãe excêntrica e carinhosa que nutre o talento do filho. Paul Dano interpreta Burt, o pai engenheiro de Sammy, de maneira meticulosa e tradicional, capturando o contraste entre a lógica e o espírito artístico da família. O jovem Gabriel LaBelle se destaca no papel principal, trazendo uma autenticidade que torna o Sammy Fabelman crível e cativante.

Apesar de alguns críticos considerarem Os Fabelmans leve demais para o padrão “grande Spielberg”, há algo de reconfortante e positivo em sua abordagem. Em um período marcado por notícias pesadas e tramas cinematográficas cada vez mais densas, a leveza do filme se destaca. Spielberg nos convida a ver o cinema não como uma mera fuga, mas como uma ferramenta para encontrar sentido e beleza na realidade, e também como uma poderosa âncora emocional.
O filme também presta homenagem ao impacto cultural do cinema e à sua própria jornada como um dos maiores cineastas de sua geração. Spielberg não se preocupa em fazer de Os Fabelmans uma obra densa ou revolucionária, mas sim um tributo sincero ao poder do cinema e às pessoas que o moldaram. O resultado é uma obra que ressoa pelo carinho e pela humanidade.
Com duas horas e meia de duração, o filme flui com uma suavidade que revela o toque experiente de Spielberg. Os Fabelmans não é uma obra-prima de intensidade dramática, mas uma celebração calorosa e gentil da paixão artística, um alívio bem-vindo e uma janela para a formação do artista Spielberg. É um testemunho de como o amor pelo cinema pode guiar, curar e inspirar uma vida.







