Os Pestes

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"Os Pestes": Uma fantasia sem sabor

Em Os Pestes, a Netflix tenta adaptar o humor grotesco e a crueldade divertida de Roald Dahl para um público contemporâneo — e tropeça feio no processo. A história do casal Peste, dois vilões repulsivos e caricatos, sempre foi uma sátira sobre egoísmo, ganância e falta de empatia. Mas aqui, em vez de preservar o tom ácido e irreverente do autor, o filme opta por suavizar tudo com lições de moral que soam impostas e deslocadas.

O resultado é uma animação visualmente chamativa, mas espiritualmente estéril. O diretor Phil Johnston, responsável por filmes criativos como Detona Ralph e Zootopia: Essa Cidade é o Bicho, parece perder a mão ao tentar equilibrar o nonsense característico de Dahl com uma narrativa mais palatável. O que era para ser uma comédia de humor ácido acaba se tornando uma aventura genérica, onde as esquisitices são domesticadas e os personagens, humanizados à força.

Margo Martindale e Johnny Vegas emprestam suas vozes ao Sr. e à Sra. Peste, mas a dublagem, por mais competente que seja, não consegue compensar a falta de direção cômica. As maldades do casal, que no livro eram grotescamente divertidas, aqui parecem apenas desagradáveis — e sem propósito. Em vez de rir do absurdo, o espectador se vê distante da história, incapaz de se conectar com o que está em jogo.

A tentativa de atualizar a trama, transportando-a para uma versão fictícia do Texas e incluindo críticas políticas contemporâneas, soa forçada. A sátira perde o timing e, pior, a universalidade. O humor sujo e anárquico de Dahl sempre funcionou porque se mantinha num espaço simbólico, exagerado e amoral. Quando a animação tenta dar a isso um contexto realista ou moralizante, o encanto se esvai.

A inserção das crianças órfãs Beesha e Bubsy, junto de uma família de animais mágicos, acrescenta emoção, mas também dilui o espírito da obra original. É como se o filme tivesse medo de ser cruel demais, engraçado demais ou absurdo demais. E, ao se proteger, perde justamente o que tornava Dahl tão fascinante: sua coragem em tratar o grotesco como espelho da humanidade.

Ainda que visualmente colorido e com alguns momentos inspirados de design — especialmente na concepção da Pestelândia, um parque de diversões tão repulsivo quanto inventivo —, o filme carece de ritmo e identidade. A cada nova tentativa de inserir uma lição sobre empatia e união, Os Pestes se afasta da irreverência que poderia salvá-lo.

No fim, o que resta é um produto que tenta agradar a todos e acaba não agradando a ninguém. Os Pestes é uma animação que esquece que a força de Dahl estava justamente em não ser “bonitinha”. Ao trocar o sarcasmo por sentimentalismo, a sujeira por doçura e o riso nervoso por boas intenções, o filme transforma a anarquia de seu autor em algo previsível — e, ironicamente, muito mais sem graça do que repulsivo.

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