Overman: O Filme

(2026) ‧ 1h22

Overman: O Filme e as fragilidades por trás da fantasia de um herói

Felipe Fornari

O que acontece quando um super-herói precisa de ajuda para salvar a si mesmo? Em Overman: O Filme, Tomás Portella parte dessa contradição para transformar a figura criada por Laerte Coutinho em uma sátira sobre masculinidade, vaidade e a necessidade de reconhecimento. Interpretado por Caco Ciocler, o protagonista está longe da imagem tradicional do salvador: desempregado, emocionalmente instável e sem perspectivas, ele tenta encontrar algum sentido para a própria existência enquanto insiste em sustentar uma pose de invencibilidade. A ideia tem potencial cômico e oferece espaço para comentários sobre a sociedade brasileira, embora nem sempre seja explorada com a consistência necessária.

A crise de Overman ganha novos contornos quando ele recebe uma proposta para trabalhar na Secretaria de Segurança Pública. A oportunidade parece representar uma saída para seus problemas, mas também o coloca diante de uma estrutura de poder cujas contradições nem sempre são tão diferentes das suas. Afinal, o sujeito que deveria transmitir segurança mal consegue administrar as próprias inseguranças. O filme encontra nessa inversão uma de suas melhores ideias, aproximando a fantasia dos super-heróis de uma realidade em que discursos de autoridade e demonstrações de força frequentemente escondem incompetência e interesses particulares.

A comicidade também nasce do ego inflado do protagonista e da distância entre aquilo que ele acredita ser e o que realmente consegue demonstrar. Quando Pâmela começa a conquistar reconhecimento, a disputa por atenção expõe ainda mais a dificuldade de Overman em aceitar que não precisa ocupar o centro de todas as situações. A questão da masculinidade, portanto, aparece não apenas na caricatura de um homem que deseja ser admirado, mas também na incapacidade de lidar com a possibilidade de perder protagonismo. O problema é que o roteiro nem sempre aprofunda essas contradições, confiando demais na excentricidade do personagem e menos na construção de um percurso que permita transformar suas crises em algo efetivamente significativo.

Essa irregularidade fica mais evidente na adaptação das tirinhas para o formato de longa-metragem. O humor gráfico pode se sustentar em situações isoladas, observações rápidas e quebras inesperadas de expectativa, mas o cinema exige que esses elementos encontrem alguma continuidade dramática. Em Overman, a sucessão de esquetes e situações absurdas nem sempre contribui para o desenvolvimento da história. Há momentos em que a narrativa parece interessada em acumular novas oportunidades para a piada sem estabelecer uma relação clara entre elas, o que prejudica o ritmo e faz com que parte do potencial da premissa se perca pelo caminho.

Ainda assim, o universo de antagonistas oferece boas possibilidades para a sátira. As figuras extravagantes que surgem ao longo da trama funcionam como caricaturas de comportamentos e estruturas de poder reconhecíveis, aproximando o absurdo ficcional de situações que parecem retiradas do cotidiano brasileiro. Quando a história direciona seu olhar para a política e os mecanismos de comunicação, encontra um terreno especialmente fértil para o humor, expondo as distâncias entre o discurso oficial e aquilo que efetivamente acontece. São ideias pertinentes, mas que poderiam ganhar mais força caso estivessem integradas de maneira menos episódica ao conflito central.

O elenco ajuda a sustentar esse conjunto irregular, embora nem todos os personagens recebam o mesmo cuidado. Caco Ciocler encontra espaço para explorar o ridículo e a vulnerabilidade de Overman, enquanto Maria Lucas confere personalidade a Poline Pilsen, uma figura que demonstra mais domínio sobre si mesma do que o próprio herói. A presença dela contribui para deslocar a narrativa de uma perspectiva exclusivamente masculina, ainda que as relações ao redor do protagonista pudessem ser mais desenvolvidas. Visualmente, a produção aposta em cenários cotidianos e numa ambientação deliberadamente modesta, coerente com a distância entre a grandiosidade dos super-heróis tradicionais e a precariedade da vida de seu personagem. A trilha sonora, por sua vez, brinca com a pompa épica das aventuras heroicas, mesmo quando a execução nem sempre encontra a medida ideal entre a paródia e o exagero.

No fim, Overman: O Filme é uma comédia que encontra boas ideias ao questionar a imagem do homem invencível, mas nem sempre consegue convertê-las em uma narrativa coesa. A sátira política e a desconstrução da masculinidade oferecem momentos interessantes, enquanto a interpretação de Ciocler mantém o protagonista suficientemente humano para que suas falhas não se resumam a uma coleção de piadas. Entretanto, a irregularidade do roteiro e a dificuldade de conciliar o humor episódico com uma história mais bem estruturada impedem que o filme alcance todo o seu potencial. Há graça e crítica sob a fantasia, mas falta encontrar o equilíbrio entre elas para que o resultado seja tão contundente quanto a proposta sugere.

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