Com a segunda temporada de Pacificador, James Gunn prova que ainda sabe equilibrar caos, humor e tragédia como poucos no universo dos super-heróis. A série retorna mais debochada, mais sangrenta e, curiosamente, mais humana. John Cena continua explorando o ridículo e o trágico de seu personagem com uma entrega física e emocional impressionante — o tipo de atuação que, por mais improvável que pareça, realmente mereceria ser lembrada na temporada de prêmios da TV.
Desta vez, acompanhamos Chris Smith tentando transformar a fama de “salvador da Terra” em algo parecido com uma carreira estável. Mas, fiel ao estilo de Gunn, nada dá certo por muito tempo. Um mês depois dos eventos da primeira temporada (e das consequências do novo Superman de Gunn), o Pacificador está novamente atolado em crises pessoais, profissionais e existenciais. Ele é um herói sem propósito, um homem em guerra com o próprio ego e com o mundo ao redor — e essa é exatamente a força da série.

Enquanto o protagonista afunda em autodestruição, o resto da equipe tenta seguir com suas próprias misérias. Economos (Steve Agee) é coagido pela Argus a espionar o amigo, Adebayo (Danielle Brooks) enfrenta o fim de um relacionamento e Emilia (Jennifer Holland) tenta sobreviver à rejeição de uma comunidade de inteligência que agora a vê como uma traidora. O Vigilante (Freddie Stroma), por sua vez, continua sendo o psicopata mais carismático da televisão, agora com uma obsessão estranha por corujas. É o tipo de grupo disfuncional que Gunn domina, onde cada fracasso vira combustível para mais absurdos.
O episódio mais comentado da temporada — uma sequência de orgia que se estende por longos minutos — é o ápice do humor ácido da série. Mas o que realmente chama atenção é o que vem depois: a abordagem inesperadamente prática e constrangedora da “faxina” pós-evento. É o tipo de detalhe que só Pacificador se atreveria a explorar, misturando pornografia emocional e sátira burocrática. Mesmo no exagero, Gunn encontra humanidade — e riso — nas consequências.
Há também uma nova camada de ficção científica que torna o arco de Chris mais interessante: o depósito onde ele guarda armas e capacetes revela-se um portal quântico para outras 99 realidades. Entre elas, uma em que o Pacificador é amado e tem até uma motocicleta estilizada chamada P-Cycle. A tentação de fugir para uma vida onde ele “deu certo” é o cerne da temporada — e o ponto em que a comédia vira reflexão sobre fracasso, redenção e autoimagem.

Claro que tudo isso ainda vem acompanhado da marca registrada de Gunn: violência gráfica, piadas politicamente incorretas e uma trilha sonora de hair metal que parece saída de uma jukebox. Mas, por trás das explosões e do sangue, há um coração pulsando com força. O criador claramente tem afeto genuíno por esses personagens quebrados, e isso torna cada mínima vitória — cada abraço torto, cada desculpa mal formulada — emocionalmente significativa.
O que sustenta tudo, porém, é John Cena. Ele domina a tela com a combinação improvável de inocência e brutalidade, fazendo do Pacificador um anti-herói tragicômico e, paradoxalmente, vulnerável. Em uma temporada que mistura o grotesco com o sublime, o ator encontra humanidade até nos momentos mais absurdos — como quando, bêbado e atrasado, grita “PISS!” para si mesmo tentando acelerar o próprio xixi. É uma síntese perfeita da série: escatológica, patética, hilária e, de algum modo, profundamente tocante. Pacificador segue sendo uma das produções mais ousadas e emocionalmente complexas do gênero — um lembrete de que até os idiotas podem carregar o peso do mundo nas costas.





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