Paz para Nós em Nossos Sonhos

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02.06.2016

As noções de tempo no cinema são diferentes da vida real, o tempo pode ditar o tom e uma linguagem, que se espaçado, constrói um ambiente frio e de pura absorção de um sentimento. Seu respiro, pode tanto trazer o tédio a uma sequência como uma alucinação frenética, se mais curto.


Paz para Nós em Nossos Sonhos, filme dirigido por Sharunas Bartas, que também assina o roteiro, se passa no verão, onde um marido, junto de sua nova esposa e sua filha do casamento anterior, vão para uma casa de campo e lá tentam resolver questões que estão acabando com a convivência da nova famí­lia. A falta de diálogo, principalmente entre o pai e a filha, é um dos ganchos da trama mais interessantes. Enquanto o pai foge da conversa, a filha busca uma maneira de se entender após a perda de sua mãe. Já a nova esposa, vive frustrada entre um casamento distante e uma carreira irrelevante.


O tempo e os longos takes da produção, conseguem trazer frieza e contenção de sentimentos para esses personagens imersos numa vida diminuída e sem abertura para novidades. O filme dá uma sensação de cansaço e vicia os personagens nas mesmas atitudes, diálogos e tomadas, dos quais eles não sabem mais de onde tirar força para sair. Ao mesmo tempo que os personagens vivem para um colapso eminente, eles criaram uma certa independência que se desvinculam uns dos outros, deixando-se soltar, mas ainda presos ao mesmo tempo.


O silêncio tem um forte papel na estrutura do roteiro, que apresenta mais uma ideia do que uma história. Nada é explicado nessa trama, os conceitos são brevemente deixados para que a gente os procure. São fragmentos distribuí­dos de vidas que não conversam e nem cabem no mesmo contexto, tentando complicar a simplicidade da base do texto que simplesmente quer falar sobre o tédio na vida moderna e como as pessoas tem dificuldade para se relacionar em um mundo que nos fecha através de traumas, problemas e vivência em geral. Essa blindagem de emoções causa uma indiferença nas relações pessoais que agravam com o tempo se não soubermos a hora de parar. Ao todo, a obra lituana, segura seus atores num universo contido e de eterno desejo de fuga. Esse trabalho não procura trazer grandeza para o filme simples e minimalista que é, mas sim para a reflexão que ele promove.

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AUTOR

Felipe Cavalcante

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