Em Perrengue Fashion, da diretora Flavia Lacerda, Ingrid Guimarães interpreta Paula Pratta, uma influenciadora digital de moda que se vê diante da oportunidade de sua vida: realizar a campanha publicitária de Dia das Mães para uma marca famosa — algo que poderia consolidar sua carreira no mundo fashion. Paula reconhece que esse convite pode representar uma virada em sua vida profissional e pessoal, um verdadeiro divisor de águas.
Uma das exigências da marca é contar com a presença dos filhos e filhas das convidadas na estreia da campanha. No caso de Paula, seu filho Cadu (Filipe Bragança) estuda Business na Universidade da Califórnia e precisa retornar ao Brasil para realizar não apenas a campanha publicitária, mas também o sonho de sua mãe.
Assim, ocorre a grande virada no roteiro, pois é a partir das dificuldades para encontrar o filho que a protagonista embarca, junto com seu amigo e assessor Taylor (Rafa Chalub), em uma viagem para a Amazônia — Rafa Chalub, hilário e competente, que nos brinda com uma atuação digna de um grande humorista. A jornada dos dois amigos pela região norte torna-se uma espécie de “Elo Perdido” contemporâneo.

O “Elo Perdido” está inserido nas investigações de Charles Darwin no século XIX. A maioria da comunidade científica concorda em afirmar que a seleção natural é o mecanismo que explica as transformações dos seres vivos. Em relação aos seres humanos, acredita-se que o homem atual (Homo sapiens) é o resultado de um processo evolutivo de milhares de anos.
É possível relacionar uma tese científica com uma comédia blockbuster? Acredite, é possível. O clímax da produção ocorre no exato instante em que, por meio do sensor da bagagem do filho, Paula identifica sua localização e parte com o propósito de encontrá-lo — sem ter a mínima noção do que a espera. É nessa intersecção improvável, entre o mundo fashion e uma comunidade ambiental e autossustentável — que defende um modo de vida mais sustentável, regenerativo, justo e equilibrado — que residem as sequências mais engraçadas. Nesse momento, passamos a nos questionar: até que ponto a modernidade é sinônimo de evolução ou de degradação sistemática do meio ambiente e de todas as formas de vida, humanas e não humanas?
Paula passa a enfrentar um duplo desafio: convencer o filho a participar da campanha publicitária e conviver com um mundo completamente diferente da sua realidade. Junto com seu fiel amigo, Taylor, ela passa a enfrentar todas as dificuldades inerentes ao choque entre dois universos distintos. A partir de então, brilham o talento e a afinidade de Ingrid e Rafa — uma dupla imbatível na arte de fazer rir, inclusive dos absurdos que somente dois sudestinos conseguem realizar.
A trilha sonora prioriza compositoras e compositores da cena musical brasileira contemporânea, como Gilsons e Rachel Reis, em perfeita harmonia com a fotografia, que privilegia as paisagens amazonenses — paradisíacas e de tirar o fôlego.
Porém, aqui reside uma crítica: o filme, em alguns momentos, reafirma estigmas e preconceitos sobre a população amazonense e sobre formas de convivência que não privilegiam o lucro, o reconhecimento instantâneo das redes sociais e a concorrência desmedida — vale tudo em nome do entretenimento?
Em contrapartida, a produção acerta ao mostrar as transformações socioambientais que Paula enfrenta, e que acabam tornando-a um ser humano melhor, mais empático e resiliente, compreendendo que seu querer não tem o poder de moldar ou definir a vida e as vontades do filho.

O filme acaba sendo também uma celebração da amizade e de uma receita de sucesso no universo da cinematografia brasileira. Ingrid e Rafa — ou Paula e Taylor —, quando estão juntos em cena, demonstram um entrosamento tão genuíno que nos remete quase instantaneamente à amizade de Fernanda (Monica Martelli) e Paulo Gustavo (Aníbal) em Minha Vida em Marte (2018).
Monica Martelli, Heloisa Périssé, Tatá Werneck, Dani Calabresa, Gregório Duvivier, Fábio Porchat e Marcelo Adnet, entre outros e outras, se destacam cada vez mais. Todas e todos são herdeiros de uma escola — a Escola Paulo Gustavo de humor —, que nos deixou de maneira trágica e precoce, aos 42 anos, vítima da Covid-19 e do negacionismo do governo brasileiro.
A magia da arte é que as pessoas se vão, mas o legado permanece. Perrengue Fashion pode até ser visto como uma fórmula repetida, “mais do mesmo”, mas se engana quem pensa assim. O humor é utilizado de maneira eficiente, valorizando as culturas locais e a biodiversidade, e deixando como mensagem final que devemos viver em harmonia com as pessoas, preservando a natureza, respeitando as individualidades e as diversas visões de mundo e de sociedade. É no respeito social, ambiental, coletivo e individual que a gente se encontra.




