Personal Shopper

09.03.2017 │ 10:56

09.03.2017 │ 10:56

Existem algumas certezas que não são tão fáceis de delinear na existência humana. Questionamentos como “Há vida após a morte?” ou “Isso existe ou é apenas algo da minha mente?” têm respostas tão subjetivas – dependendo das experiências de cada um – que dialogarão com algumas pessoas e com outras não farão o mínimo sentido. Em Personal Shopper, o diretor francês Olivier Assayas tenta transitar entre o subjetivo, vindo de uma vontade de crença, e os truques reais de uma mente que maquia situações em benefício próprio.

Maureen (Kirsten Stewart) é americana e está na França tentando fazer contato com o irmão gêmeo, morto de forma prematura por uma doença no coração. Os dois acreditavam que eram médiuns, no sentido espiritualista, e que quando um falecesse o outro retornaria para contato. Em contraponto, para se manter na França, Maureen é uma personal shopper, andando pelos lugares – inclusive entre países – fazendo compras e buscando roupas para Kyra (Nora von Waldstätten), uma modelo famosa e arrogante. Maureen transita entre mundos, o da casa vazia do irmão morto e o efêmero da moda, e passa a borrar os limites do que vê, do que acredita e de como sua mente age sem ela perceber.
Personal Shopper não é um filme fácil de delimitar, do ínicio ao fim ele brinca com as noções de gênero fílmico do espectador. Ora ele se apresenta como thriller, batendo portas e delineando um espectro que flutua, ora joga mentalmente com cenas e comportamentos da protagonista. Essas ousadias que Assayas propõe deixam o espectador bastante apreensivo em primeiro momento, não à toa o filme foi vaiado depois da exibição em Cannes, no último ano. Porém, com um certo distanciamento, percebe-se que o longa incita justamente essa rejeição por conta das definições que fazemos do que pode ou não ser feito e do como isso pode acontecer dentro do cinema.

O grande trunfo de Personal Shopper é Kirsten Stewart, que já havia trabalhado com o diretor em Acima das Nuvens, provando que uma boa direção de atores pode revelar uma ótima atriz. Stewart, constantemente criticada desde da saga Crepúsculo, está quase hipnotizante no longa de Assayas. Ela transita muito bem no filme e empresta um olhar que, ao mesmo tempo nos incita a acreditar em sua jornada, também como duvidamos de suas visões e crenças, pois se mostra visivelmente perturbada com o transcorrer do longa.
Há vários outros pequenos pontos explorados em Personal Shopper, como a efemeridade da noção de beleza que a moda e a fama propõem, também o desejo de ser outro, de passar dos limites da própria identidade que refletem na noção de mediunidade e contato que Maureen e o irmão tem. É um filme para se pensar a narrativa muito antes de se acomodar apenas com a sensação de incômodo que ele provoca. A estrutura escolhida por Assayas, para tratar das várias noções de fantasma, se aproxima, mais do que pensamos, da forma que nossa mente encara o luto e outras situações que abalam a identidade. Personal Shopper não é um longa para ser levado em conta apenas em uma primeira impressão, deve ser encarado, assim como os fantasmas do cotidiano.
Nota:

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