Praia do Silêncio

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"Praia do Silêncio": Ecos de um amor perdido entre memórias, cartas e mares revoltos

Praia do Silêncio, longa-metragem de Gabriel Campos e Francisco Garcia, é uma verdadeira catarse familiar. Conta a história dos encontros, desencontros, abandonos, rupturas e incomunicabilidades ao longo da vida dos personagens. Essa montanha-russa de sentimentos se estabelece na relação entre pai e filha.

Nos primeiros minutos de exibição, o filme apresenta o fio condutor de toda a narrativa: “Pai do paraíso perdido e escondido em que você vive, eu vou fazer um inferno”. Trata-se de uma adaptação do poema épico Paraíso Perdido, de John Milton, que descreve a queda do anjo Lúcifer, o qual prefere ter o controle no inferno a servir e obedecer a Deus no paraíso.

André, interpretado por André Gatti, é o protagonista. Professor universitário, abandona a família e escolhe viver no ostracismo em seu motorhome, estacionado em uma praia praticamente inabitada, acompanhado apenas de um amigo e de seus inúmeros fantasmas, que persistem em suas memórias e dilemas pessoais. Lúcia, sua ex-mulher, é a narradora-personagem. Conta a história a partir do próprio ponto de vista e, embora não apareça em cena, não pode ser considerada uma personagem secundária, já que sua voz conduz a narrativa em primeira pessoa.

Laura, interpretada por Anna Abbott, é filha de André e Lúcia. Deficiente auditiva, ama o pai pelo avesso, no excesso de silêncio; sua afeição é proporcional à solidão que carrega. Sua existência é marcada por uma dicotomia dramática: a presença na ausência do pai e a depressão da mãe.

As locações escolhidas foram as praias de Maresias e Boiçucanga, no litoral paulista — paisagens de tirar o fôlego, com areia fofa, amarelada e fina, além de um mar aberto, límpido e de tombo. O mar é o elemento que aproxima pai e filha: diante daquela imensidão, juntos ou separados, ambos encaram um passado doloroso e um futuro assombrado por fantasmas que se confundem com suas próprias imagens. Enquanto um amadurece, o outro envelhece, sentindo uma dor dilacerante, incapaz de reconciliar. Amor e ódio coexistem em igual intensidade, como o gosto amargo do ferro na boca.

“A história é uma senhora caprichosa” — expressão adaptada da obra A Bizarra Aventura da Senhorita Caprichosa — traduz as trajetórias dos personagens, que refletem também os desafios de um país em processo de redemocratização, onde a realidade social se transforma constantemente, entre pontes e despedidas, entre utopias e realidades em declínio.

O filme se divide em três partes: De um tipo de pai que pode existir; Quem saberá o resultado de um país em reconstrução; e A solidão de uma mãe. Entre tantas dúvidas, existe um consenso: a paternidade não é ficção. A estrutura tripartite faz referência à obra Ratos e Homens, de John Steinbeck, publicada em 1937, que narra a trágica história de George e Lennie, dois trabalhadores rurais na Califórnia durante a Grande Depressão (1929-1939).

A proposta dos diretores mescla ficção e realidade: do drama familiar aos avanços e retrocessos da política brasileira desde os anos 1990 — da eleição do “professor” à do “operário” —, criando uma fusão complementar e dialógica entre o público e o privado.

Todos estão perdidos: a família disruptiva e o Brasil. Um dos aspectos mais interessantes do roteiro é a capacidade de acompanhar as mudanças recentes da sociedade, da eleição de Fernando Henrique Cardoso (1994) à prisão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (2018), refletindo sobre os limites da militância e dos sonhos não concretizados.

O silêncio e as cartas funcionam como combustíveis da trama, que possui ritmo próprio: lento, contínuo e quase sem clímax. Ainda assim, captura nosso olhar e nossas emoções, que oscilam entre indignação e generosidade. O que define os personagens e a estrutura do filme é a busca por pertencimento e reconhecimento. Detalhe importante: a última carta é uma condenação silenciosa, marcada pela raiva e pelo rancor, que nos convoca a participar de um acerto de contas com o mau-caratismo e o egoísmo calado. “Ano passado eu morri e este ano eu morro de novo”.

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