Muito antes de a televisão ocupar o centro das casas brasileiras, bastavam algumas vozes, efeitos sonoros e uma boa dose de imaginação para criar universos inteiros. PRK-30: O Rádio pelo Avesso recupera a trajetória do programa comandado por Lauro Borges e Castro Barbosa, fenômeno que parodiava a própria programação radiofônica e transformava suas convenções em matéria-prima para o humor. Eduardo Albergaria encontra nessa história não apenas a oportunidade de celebrar dois artistas, mas também de discutir o quanto da memória cultural brasileira desapareceu pela ausência de preservação.
A ideia por trás do PRK-30 continua surpreendentemente moderna. Em vez de simplesmente apresentar quadros humorísticos, Borges e Barbosa inventaram uma emissora dentro da emissora, com locutores, cantores, repórteres, anúncios, transmissões esportivas e personagens interpretados praticamente pelos próprios dois artistas. O programa compreendia profundamente a linguagem do rádio para então desmontá-la, utilizando erros propositais, trocadilhos, sotaques, interrupções e efeitos sonoros como elementos de uma anarquia cuidadosamente construída.

É quando permite que esse material fale por si que PRK-30: O Rádio pelo Avesso se torna mais interessante. As gravações sobreviventes demonstram um humor ágil que, apesar das inevitáveis marcas de sua época, ainda consegue produzir graça. A recriação de um programa com atores, músicos e efeitos sonoros contemporâneos também funciona muito bem ao permitir que o espectador compreenda fisicamente como aquele universo era produzido. Mais do que explicar a mecânica do rádio, o documentário consegue por alguns momentos fazê-la acontecer novamente.
Ainda mais valioso é o resgate do registro cinematográfico encontrado no acervo da Cinemateca Brasileira. Depois de conhecer uma atração essencialmente através das vozes e das lembranças deixadas por quem a ouviu, finalmente observar Lauro Borges e Castro Barbosa diante dos microfones produz uma emoção que ultrapassa a curiosidade histórica. A raridade dessas imagens também expõe uma questão maior: um programa capaz de alcançar milhões de brasileiros durante duas décadas pode quase desaparecer quando um país não trata sua memória audiovisual como patrimônio.
O documentário, entretanto, nem sempre consegue aprofundar tudo aquilo que apresenta. Depoimentos de nomes importantes ajudam a dimensionar a influência do PRK-30, mas a utilização de entrevistas provenientes de outros contextos eventualmente deixa perceptível a necessidade de preencher lacunas. Sobretudo, permanece a vontade de conhecer melhor Borges e Barbosa como artistas e compreender com maior precisão de que maneira as invenções da dupla foram absorvidas pelas gerações posteriores do rádio, da televisão e da comédia brasileira.

A estrutura bastante convencional também limita um pouco uma obra dedicada justamente a um programa conhecido por subverter formatos. Entrevistas, arquivos e contextualizações são organizados com competência, mas raramente o próprio documentário incorpora a irreverência de seu objeto para experimentar com sua linguagem. Existe uma curiosa distância entre a liberdade formal do PRK-30 e a segurança com que sua história é contada, fazendo com que algumas passagens assumam um caráter mais informativo do que propriamente cinematográfico.
Ainda assim, PRK-30: O Rádio pelo Avesso cumpre uma função valiosa ao retirar do esquecimento uma criação fundamental do humor brasileiro. Mesmo sem investigar tão profundamente quanto poderia a personalidade de seus criadores e a extensão de sua influência, Eduardo Albergaria oferece uma introdução acessível e afetuosa a um fenômeno que merece ser redescoberto. Se o documentário não consegue reproduzir inteiramente a inventividade do programa que homenageia, ao menos devolve suas vozes — e, graças a algumas preciosas imagens sobreviventes, também seus rostos — a uma memória brasileira que esteve perigosamente próxima de perdê-los.








