Rebecca, a Mulher Inesquecível (1940)

"Rebecca, a Mulher Inesquecível" é um melodrama habilmente filmado

21.06.1940 │ 08:00

21.06.1940 │ 08:00

"Rebecca, a Mulher Inesquecível" é um melodrama habilmente filmado

É o cúmulo da ironia que o único filme dirigido pelo “Mestre do Suspense” a ganhar o Oscar de Melhor Filme seja um melodrama gótico. Isso não quer dizer que não haja tensão em Rebecca, a Mulher Inesquecível, mas isso é o mais longe do confortável território de suspense quanto Hitchcock jamais se desviou. O resultado mostra que o diretor era capaz de um alcance que poucos acreditariam. Com Rebecca, ele ilustra uma aptidão para criar não apenas terror psicológico, mas drama e romance. Em termos de reconhecimento da Academia, Rebecca, a estreia americana de Hitchcock (depois que o produtor David O. Selznick o trouxe da Inglaterra), foi a mais elogiada. Essa é uma declaração surpreendente quando se considera a filmografia do cineasta.

Com o passar dos anos, Rebecca perdeu um pouco de seu brilho e não é mais considerado um dos melhores filmes do diretor. Parte disso tem a ver com o tom e o tema do filme. No final de sua carreira e especialmente após sua morte, Hitchcock se tornou sinônimo de thrillers e Rebecca não se encaixa nos padrões. Depois, há o simples fato de que Rebecca não é tão incrível quanto Janela Indiscreta, Um Corpo que Cai, Intriga Internacional, Psicose e alguns outros títulos do diretor. É um bom filme, sem dúvidas, mas Hitchcock produziu obras muito melhores – embora a Academia não tenha reconhecido isso. Ainda assim, as 11 indicações e duas vitórias de Rebecca representam algo, especialmente em uma época em que o Oscar significava mais do que hoje.

O filme é uma adaptação razoavelmente fiel do que muitos consideram o melhor romance de Daphne Du Marurier. O roteiro faz algumas mudanças, mas, no geral, é uma representação precisa da história. Ao mesmo tempo, Du Maurier confessou que Rebecca foi uma das poucas adaptações de seus romances que ela aprovou. Hitchcock foi ao trabalho dela três vezes em busca de inspiração. Seu romance A Estalagem Maldita foi a base para sua produção de 1939 (e foi a primeira vez que algo que ela havia escrito foi adaptado para as telonas) e uma de suas histórias foi adaptada para Os Pássaros. A versão de Hitchcock foi a primeira de muitas em que Rebecca iria agraciar as telas, e a maioria dos críticos a considera a melhor.

A história começa em Monte Carlo, onde uma jovem (Joan Fontaine, de Suspeita) ganha a vida como companheira paga de uma rica americana. Enquanto a senhora está na cama com gripe, a jovem conhece e é cativada por um senhor da Cornualha, Maxim de Winter (Laurence Olivier, de Jogo Mortal). Ele é taciturno e bonito e ela se apaixona perdidamente por ele e ele aparentemente por ela. Seu romance turbulento leva a um casamento e ele a leva para casa como “a segunda Sra. De Winter”. Esta não é a primeira vez que Maxim se casa. Sua esposa anterior, Rebecca, morreu em um acidente de barco há vários anos e dizem que sua morte o quebrou. Mas algo na inocência de espírito de sua nova esposa reacende o amor pela vida, mesmo que ele afirme que nunca será feliz de verdade.

A nova Sra. De Winter não acha fácil ser a patroa de Manderlay, a vasta propriedade de seu marido. Ela confia na governanta, Sra. Danvers (Judith Anderson, de Gata em Teto de Zinco Quente), para ajudá-la no dia a dia das coisas, mas não percebe que a Sra. Danvers pode não ter os melhores interesses no coração. Enquanto isso, a memória de Rebecca, palpável como um espectro, assombra a mansão. Seus aposentos são mantidos quase como um santuário e seus pertences podem ser encontrados ao redor da grande casa. Não demora muito para que a segunda Sra. De Winter sinta que está competindo com sua predecessora pelos afetos de seu marido, e está perdendo para uma presença que nunca poderá derrotar.

Rebecca se encaixa no padrão de três atos que define muitas histórias clássicas de Hollywood. A primeira parte é uma história de amor simples. É contada com ternura e sentimento e ilustra que, se Hitchcock quisesse, ele poderia ter sido um grande diretor de grandes romances em Hollywood. O segundo ato, que envolve o relacionamento difícil da segunda Sra. De Winter com Manderlay e seus servos, sua “batalha” com Rebecca e a revelação da verdade sobre Maxim, é mais tipicamente hitchcockiano do que o resto do filme. O diretor usa ângulos de câmera, edição e música para enfatizar a claustrofobia da personagem principal à medida que ela se transforma quase em histeria. Finalmente, o terceiro ato é, em parte um policial e em parte um drama à medida que o filme acelera até sua conclusão lógica.

Rebecca é um melodrama habilmente filmado, mas não há nada estilisticamente único que o diferencie como um dos filmes mais reverenciados do diretor. Prova, no entanto, que um cineasta acostumado a fazer pequenos filmes na Inglaterra poderia abraçar o sistema Hollywoodiano e desenvolver um grande filme que agradaria tanto a crítica quanto o público. Escolher a história de Du Maurier foi uma excelente decisão porque permitiu a Hitchcock misturar estilos e gêneros.

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