Rejeito é um filme-denúncia documental que apresenta, de forma visceral, as consequências da extração de minério de ferro pela multinacional brasileira Vale do Rio Doce, em Minas Gerais. Com estreia prevista para o próximo dia 30 de outubro, a obra é um retrato fiel da cobiça e da ambição, abordando as consequências do desastre criminoso e ambiental em Brumadinho, exatamente dez anos após a tragédia em Mariana.
A produção chega aos cinemas brasileiros com o objetivo de descortinar, por meio de personagens reais, as consequências do rompimento das barragens e da exploração desmedida da mineração em Minas Gerais, especialmente da conselheira ambiental Maria Teresa Vianna de Freitas, dona de uma coragem e de uma crença inabalável em prol dos atingidos pelas barragens e na defesa de toda a sociedade.
Maria Teresa é uma mulher admirável que enfrenta o modus operandi do governo e das mineradoras, revelando que o lucro se sobrepõe à vida das pessoas, enquanto comunidades ameaçadas resistem em seus territórios. Ao abordar a militância da conselheira ambiental, o diretor a retrata de forma crítica, sensível e incansável.

A principal contribuição da produção é retirar do esquecimento as trajetórias invisibilizadas dos afetados pelo processo de exploração descontrolada da mineração. Os dilemas e angústias da população carente e vulnerável são expostos como forma de denúncia, na luta por reparação e para que situações como as de Mariana e Brumadinho não se repitam, evitando, assim, o esquecimento.
Um dos depoimentos mais fortes é o de um morador da cidade de Socorro, com mais de 300 anos de história, no qual ele afirma que “estão matando os sonhos e a vontade de viver de sua comunidade”. E completa: “A gente não precisa de muito para viver, queremos apenas nossas vidas protegidas e respeitadas.”
Rejeito é o primeiro longa-metragem dirigido pelo cineasta belo-horizontino Pedro de Filipps, fruto de uma pesquisa profunda e detalhada sobre a exploração do minério de ferro em Minas Gerais desde os tempos coloniais. Prova disso é que a produção levou quatro anos para ser concluída, acompanhando as situações vivenciadas pelas comunidades atingidas pelo mar de lama decorrente da exploração desmedida no Estado, que detém 61% do minério de ferro bruto existente no Brasil, que representa cerca de 320 milhões de toneladas.

É importante destacar o reconhecimento do documentário em mostras e festivais ao redor do mundo. A obra conquistou diversos prêmios internacionais. Entre os destaques estão: Melhor Filme no FICMEC (Espanha), CineEco (Portugal), Festival Sarancine e Mostra Ecofalante, além da Menção Especial do Júri no Indie Memphis (EUA) e do Prêmio da Juventude no CineEco.
Um aspecto importante problematiza o fato de que Mariana e Brumadinho foram os maiores rompimentos de barragens de rejeitos da história. O primeiro, em 2015, foi o maior desastre mundial e também o maior do Brasil, representando o maior número de comunidades atingidas e soterradas, além de mais de mil quilômetros de entulhos lançados no Rio Doce e no Oceano Atlântico. Já no caso de Brumadinho, tratou-se do desastre ambiental com o maior número de fatalidades: ao todo, foram 272 vidas perdidas pela ambição desmedida da Vale do Rio Doce.
Entretanto, não foram os primeiros e, infelizmente, não serão os últimos, conforme informações de outros desastres: 1986 (Fernandinho), 2001 (Macacos), 2014 (Itabirito) e 2015 (Mariana). Diante desse retrospecto trágico, a obra nos leva a refletir sobre o fato de que a população mineira vive em uma condição de insegurança e medo permanentes, como se estivesse sempre sob as barragens, na iminência de ser soterrada pela lama, consequência da ambição, da ganância e da irresponsabilidade dos donos do poder político e do capital.







