Resenha │ Os Dez Mandamentos

28.01.2016 │ 09:00

Se você está pensando em conferir "Os Dez Mandamentos" nos cinemas, deixa pra lá: dá uma espiada na novela na internet e aguarda o filme sair na TV

E aí vamos nós, conversar sobre o filme mais comentado das últimas semanas. Bom, mais comentado por causa de notí­cias como “Filme vai abrir em mais de mil cinemas no Brasil”, ou “Filme campeão de bilheteria, mesmo antes da estreia”. Acho que vocês já sabem de que filme vamos falar, não é mesmo? Sim, Os Dez Mandamentos, adaptação da novela de mesmo nome, e muito sucesso, da Rede Record. Mas a pergunta que não quer calar, apesar de todo alarde de sucesso da adaptação, é: o filme é bom, ou as pessoas estão sendo arrastadas aos cinemas por outros motivos? Vai lá pegar um café e vamos conversar, vem.

Primeiramente, deixa te contar a história por cima, porque se você for assistir ao filme sem saber, não vai entender muita coisa, ou vai ficar perdido por um bom tempo, tentando entender quem é quem. Basicamente, o faraó egípcio decreta que bebês homens têm que ser mortos porque ele está com medo do crescimento populacional dos hebreus. Aí­ a mãe de Moisés (que é o personagem principal da história) abandona seu bebê em um cesto no Nilo, e a filha do faraó encontra o moleque e o adota. Ele cresce, descobre suas origens e decide ajudar seu povo. Fica fora um tempo, casa, cria umas cabras, aí­ volta com um cajado do poder e ordens de Deus para levar o povo hebreu, escravizado no Egito, para a terra prometida. Moisés avisa o atual faraó, Ramsés, que era seu amigo de infância, que Deus enviará pragas caso ele não obedeça às ordens do ser supremo. Ramsés, que tem seus deuses pra adorar e não acredita nesse ser invisível, não obedece. Aí­ a casa cai, com todo tipo de praga acontecendo. No final, Moisés leva o povo embora, faz o Mar Vermelho abrir pro povo passar, fecha em cima da guarda egí­pcia e o povo foge. Mais tarde (tipo, uns anos mais tarde), Moisés sobe a montanha e pega umas tábuas, que Deus enviou, contendo os dez mandamentos. The end.

Agora que tiramos isso do caminho, vamos ao que interessa: o filme tá uma porcaria, gente. Em que sentido? Em todos. Vamos começar pelo básico: o roteiro. Eu sei a história, passei a infância ouvindo tudo sobre o Moisés, Abraão, Davi, Jesus, e um monte mais de gente. Então eu até que sei quem é quem e o que estão fazendo ali. E quem não sabe? O filme vai tirando personagens de uma cartola mágica, e não vai dando lugares definidos para os fulanos, não conta nada sobre suas motivações, histórias, nada. O filme simplesmente divide os povos em escravos pobres oprimidos (hebreus) e ricos usurpadores malvadões, donos dos chicotes (egípcios). Nada de criar um clima, de fazer o espectador acreditar, se envolver, torcer, ter qualquer tipo de sentimento. Bom, dá uma revoltazinha de ver os hebreus sendo chicoteados, mas você não está envolvido com essas pessoas, então passa rapidinho. E é tudo tão forçado (e mal atuado) que fica difícil de engolir.

Ah, as transições! Se já não bastasse um roteiro mal feito (pois a história já existe, não?), os cortes são secos, as transições não existem. Quem costurou essa história não leu o roteiro (roteiro? vixe…), ou tava com muita pressa pra editar, ou tinha muita coisa pra cortar e não sabia como fazer, ou sei lá. Já que estamos entrando em tecnicalidades, a trilha sonora até é interessante (apesar da mesma música ser repetida em duas ou três cenas diferentes), tirando a música tema do romance entre Moisés e sua futura esposa (romance tórrido pros padrões da época, tenho que dizer), que me deu medo. E a edição de som tava uma porcaria. Em certas cenas, o áudio estava baixo. Em outras, estourava, e ficava fazendo aquele estalinho no alto-falante toda vez que alguém falava. E, em outras cenas, o áudio estava tão alto que tive que fechar os ouvidos.

E pra quem está usando o argumento de “Ah, é cinema nacional, temos que defender com unhas e dentes”, ou “Gosto de Star Wars e Mad Max, mas prefiro cinema nacional”, posso fazer uma lista de filmes bem legais, bem incríveis, inclusive, neste momento, simultaneamente a Os Dez Mandamentos, que estão passando no cinema: O Menino e o Mundo, animação brasileira impecável que está concorrendo ao Oscar; e tem aquele filme sensacional, Que Horas ela Volta?, que foi nosso pré-indicado para concorrer ao Oscar. Tá, não que o Oscar seja termômetro pra filme bom, mas é pra mostrar como o nosso cinema tá sendo valorizado, e se dando bem. Esses filmes que citei não conseguem abrir em mil salas, nem vendem milhões de ingressos, mas são bons exemplos do nosso cinema. E tem muitos outros filmes bons. O cinema nacional tá indo muito bem, obrigada, e pode continuar nesse caminho, por favor.

Alguns pontos que me deixaram revoltada em Os Dez Mandamentos. Primeiro, não quero saber se foi a mulher do Ramsés que fez a cabeça dele pra ele sair correndo atrás do Moisés e tentar matá-lo. Dava pra ter cortado essa parte, odeio essa perpetuação da imagem da mulher como a cobra da história, a que atiça o coitadinho do homem, sem opinião, pra ele fazer burrada. A religião tem a obrigação moral de virar o disco e mudar isso. A não ser que a intenção seja outra, de repente manter a mulher submissa ao homem, nessa sociedade machista, e tal. Outra coisa: na minha época de carolinha de igreja, eu aprendi os dez mandamentos, e ainda sei de cor e salteado. E não tem nada lá falando que é um erro adorar í­dolos ou imagens. E no filme, Deus (cara, que tinha uma voz bem engraçada, péssima escolha, vou ter pesadelos esta noite), na hora que está esculpindo as tábuas com os mandamentos, cita isso. Impressão minha ou estamos tentando desmoralizar outras religiões, que têm como parte de seus ritos e rituais a adoração de imagens? Ah, se foi isso, Deus não deve ter ficado nada feliz, e devia voltar pra escrever uns mandamentos extras pra essa galera.

Sugestão? Espera o filme estar disponível na Record e assiste por lá.

Os Dez Mandamentos

(Os Dez Mandamentos)
País: Brasil
Direção: Alexandre Avancini
Roteiro: Paula Richard, Vivian de Oliveira
Elenco: Guilherme Winter, Sérgio Marone, Camila Rodrigues
Ano: 2016
Duração: 1h50

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