“A vida de Bryan muda completamente quando ele aceita entregar de última hora um pacote misterioso ao Hospital Geral de Raccoon City.”
Escrito por Shay Hatten e Zach Cregger, dirigido por Cregger, baseado na série de videogames “Biohazard” da Capcom, com cinematografia de Dariusz Wolski, música de Ryan e Hays Holladay, e estrelado por Austin Abrams, Resident Evil reinicia a franquia nos cinemas sob um novo ponto de vista.
Residentes dos cantos malévolos dos videogames, sejam todos muito bem-vindos a mais uma crítica repleta de sangue e apêndices.
Vinte e quatro anos após o lançamento da primeira adaptação de Resident Evil para os cinemas, – que proporcionou cinco sequências que dividiram os fãs – de um reboot que não conseguiu se consolidar, e uma série de TV, Zach Cregger traz um novo começo para a marca, mas agora com uma proposta diferente de tudo que já foi lançado para as telonas: Uma história original, que se passa em paralelo com os acontecimentos conhecidos, mas com foco na sobrevivência e horror pessoal de um personagem simples e comum.

Em Resident Evil acompanhamos a noite alucinante de Bryan (um jovem trabalhador, que acabou de saber que será pai), que após concluir suas entregas, é surpreendido por um pedido de última hora, – mas bem remunerado – levar uma importante caixa para o hospital de Raccoon City.
Tratando-se dos pontos positivos, visualmente, a obra é um espetáculo, a direção de arte constrói ambientes e cenários que parecem ter saído diretamente dos games, enquanto o figurino e a maquiagem contribuem para uma identidade visual bastante convincente, a riqueza de detalhes em algumas cenas é de impressionar, sem falar na inserção de diversos elementos visuais que encontramos jogando.
A cinematografia é de destaque, pois dirige bem a atmosfera, composição dos espaços e a sensação de ameaça, desolação e perdição iminente que permeia boa parte da produção, a manipulação das cores, e iluminação, planos abertos, sequências claustrofóbicas, tudo isso, aliado a trilha sonora e efeitos sonoros criam um horror de primeiríssima qualidade.
O que nos leva ao outro mérito, que é justamente a tradução da experiência do que é jogar Resident Evil, assim como conceitos visuais e mecânicos dos games. Mais do que reproduzir elementos conhecidos, existem momentos em que a adaptação consegue compreender aquilo que torna Resident Evil uma experiência ímpar de ser jogado, a estranheza dos ambientes, os elementos e ataques surpresas, a exploração dos ambientes, e a escassez de recursos, que proporcionam uma sensação de vulnerabilidade profunda.
No entanto, nem sempre o cuidado visual encontra o mesmo esmero no roteiro.
Além de não ser uma história muito elaborada, pois é basicamente um jovem impulsivo e imaturo se metendo em um problemão que claramente está fora de sua alçada, enquanto vai efetuar uma simples entrega, nós basicamente pegamos carona em Bryan e suas escolhas e personalidade, e precisamos esperar para saber o que o futuro reserva para ele, em retrospectiva a história parece ter sido concebida para um curta ou média-metragem, já que não existe material dramático consistente, necessitando preenchimentos eventuais com “esquetes de terror”.

Também existem inconsistências no comportamento de alguns personagens, já que em determinados momentos, algumas decisões parecem fugir daquilo que o arquétipo ou próprio filme estabeleceu sobre, ou também das experiências que acabaram de vivenciar. São pequenas rupturas de lógica que isoladamente até servem ao propósito de uma cena acontecer, ou ficar interessantes visualmente, mas, que acumuladas, tornam a narrativa menos convincente.
Tecnicamente, o desenvolvimento do protagonista é um dos elementos que mais carece de trabalho, uma vez que os elementos constam, mas não são bem executados. Existe uma tentativa clara de construir uma trajetória pessoal e dramática, mas, que não ganha o peso merecido, e pior, é constantemente interrompida pela própria estrutura da película, sobretudo com a comédia.
E assim chegamos no elemento, que para mim, é o mais frustrante, o humor, que, carregado inicialmente pela personalidade do protagonista, se replica como um vírus e toma conta de todo o corpo cinematográfico, e o que deveria ser, ou ao menos poderia ser apenas um alívio cômico, se torna tão volumoso, que às vezes fica parecendo ser um filme de comédia que é interrompido esporadicamente por esquetes de terror e ação. Ao mesmo tempo eu não penso que se trate de eliminar o humor, mas, de entender sua real funcionalidade dentro da narrativa.
Resident Evil é uma sobreposição quântica entre Originalidade e Propriedade Intelectual, de algo genérico, mas, ao mesmo tempo, muito semelhante em design e conceito aos jogos, e isso é bastante intrigante.
Se o novo Resident Evil irá ter sucesso de público, crítica e bilheteria, se iniciará uma nova franquia, eu não sei, mas, o que posso dizer é que o trabalho foi bem executado em diferentes níveis, sendo uma adaptação competente de alguns conceitos e experiências encontradas na série de jogos, contando uma história diferente, e que possui originalidade dentro desse universo. No entanto possui pontos negativos bastante enfáticos, como inconsistências narrativas, uma história curta estendida por “esquetes de terror”, e o humor exagerado que a todo instante lhe tira da imersão.








