Sabotagem

(1936) ‧ 1h16

Quando o suspense não oferece alívio

Felipe Fornari

Em Sabotagem, Alfred Hitchcock transforma a Londres cotidiana em território para uma ameaça que pode estar escondida nos lugares mais banais. Karl Verloc administra um pequeno cinema ao lado da esposa e do jovem cunhado Stevie, mas sua aparente normalidade esconde a participação em uma organização responsável por ataques na cidade. Enquanto um investigador da Scotland Yard se aproxima da família disfarçado, a senhora Verloc começa a perceber que conhece muito menos o marido do que imaginava. O resultado é um suspense que troca as grandes conspirações de Agente Secreto e 39 Degraus por uma ameaça mais íntima e, justamente por isso, mais perturbadora.

Hitchcock estabelece essa atmosfera desde o início, quando um apagão mergulha parte de Londres na escuridão. A sabotagem deveria causar pânico, mas acaba tratada com ironia pelos jornais, obrigando os conspiradores a planejarem algo mais destrutivo. Pouco importa quem exatamente financia os ataques ou quais são seus objetivos políticos; o filme deliberadamente mantém essas informações vagas. O interesse está nas consequências da violência e na facilidade com que ela pode penetrar na rotina de pessoas que sequer sabem estar próximas do perigo.

Oskar Homolka constrói Verloc como um homem inquietante justamente porque não parece um grande vilão. Ele possui uma vida doméstica, administra um negócio e circula entre clientes enquanto participa de planos capazes de matar desconhecidos. Sylvia Sidney oferece o contraponto emocional da história, conduzindo a transformação da senhora Verloc de esposa alheia às atividades do marido para alguém obrigada a confrontar uma verdade devastadora. Já o investigador Spencer ocupa uma posição menos interessante, funcionando melhor como mecanismo para aproximar a polícia daquela família do que como presença romântica realmente convincente.

É com Stevie que Sabotagem alcança sua sequência mais célebre e controversa. Sem saber o que transporta, o garoto atravessa Londres carregando uma bomba programada para explodir em determinado horário. Hitchcock informa ao espectador exatamente o que existe dentro do pacote e quando acontecerá a explosão, fazendo de cada pequeno atraso uma fonte crescente de angústia. O trânsito, uma parada pública e encontros aparentemente inofensivos deixam de ser obstáculos cotidianos para se transformarem em ameaças. Relógios surgem repetidamente enquanto o tempo diminui, e a impossibilidade de avisar Stevie torna a sequência quase insuportável.

A decisão de permitir que a bomba realmente exploda torna o momento ainda mais brutal. Hitchcock rompe com a expectativa de que toda tensão acumulada terminará em alívio e transforma a morte de Stevie em demonstração cruel de como a violência política atinge justamente quem nada tem a ver com suas motivações. A cena funciona dramaticamente porque suas consequências não desaparecem depois da explosão. Quando a senhora Verloc descobre que o próprio marido enviou seu irmão para transportar o pacote, o suspense muda completamente de natureza: já não esperamos um atentado, mas observamos uma mulher tentando processar uma dor que torna impossível continuar vivendo ao lado daquele homem.

O cinema administrado pelo casal também permite que Hitchcock crie algumas das associações visuais mais interessantes do filme. Enquanto a senhora Verloc enfrenta a morte do irmão, imagens projetadas para divertir o público assumem um significado dolorosamente diferente para ela. A sala de exibição funciona como espaço de contraste entre ficção e realidade, riso e tragédia, reforçando um interesse do diretor por espetáculos públicos que já aparecia em O Homem Que Sabia Demais e 39 Degraus. Quando o confronto doméstico finalmente acontece, uma simples faca sobre a mesa adquire mais tensão do que qualquer arma elaborada.

Sabotagem possui algumas fragilidades, principalmente na pouca definição da conspiração e em um romance que nunca alcança a força necessária, mas seus melhores momentos estão entre os mais sombrios da fase britânica de Hitchcock. Mais do que descobrir terroristas ou impedir planos internacionais, o filme observa como uma decisão tomada secretamente pode destruir pessoas completamente inocentes e contaminar até o espaço familiar. Ao negar ao público a segurança de que tudo será resolvido no último instante, Hitchcock produz um suspense particularmente cruel, no qual o verdadeiro horror não está apenas na bomba prestes a explodir, mas no vazio deixado depois que ela explode.

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