O Diário da Esperança

19.02.2015 │ 19:55

19.02.2015 │ 19:55

Uma guerra é um evento devastador na vida de qualquer ser, como sair impune de algo que banaliza a vida e suas relações? Em “O Diário da Esperança” (A Nagy Füzet, 2013), do húngaro János Szász, a perda da inocência de duas crianças é o que permeia a sobrevivência diante do holocausto nazista e a falta de alimentos e dignidade em um país devastado pela guerra.
Como Anne Frank fazia em seu diário, relatando as experiências de guerra através do olhar minucioso e questionador de uma criança judia escondida, os dois irmãos gêmeos que “O Diário da Esperança” acompanha correm menos o risco político de ser judeu e mais os riscos do endurecimento das situações que são deixados à mercê. Abandonados pelo pai que é chamado para lutar em 1944, pela mãe por acreditar que o fato de serem gêmeos chamará a atenção dos nazistas, eles são deixados no interior, na casa de uma avó desconhecida e profundamente amargurada. Os dois irmãos são orientados a continuarem juntos, estudando e relatando os acontecimentos em um caderno dado pelo pai. O que o espectador acompanha, a partir da chegada dos irmãos à fazenda da avó, é um abandono gradual da infância e a adequação à uma rigidez adulta em pequenos corpos infantis.
Os irmãos optam por um “treinamento espiritual” em que preparam o corpo e a mente para as situações extremas de fome, frio e violência. Em um ato simbólico queimam as fotos da mãe, do pai e suas cartas. Os garotos jamais serão os mesmos e criam seus próprios rituais para seguirem adiante sem depender de ninguém mais além de si mesmos. As cores do ambiente rural da Hungria durante a passagem do tempo – só vemos a neve ir e voltar – dão o tom da narrativa. Não há para onde ir e se for para ficar, que seja da forma escolhida por eles e respeitando seus próprios mandamentos.
“O Diário da Esperança” não é um retrato enfeitado sobre a Segunda Guerra Mundial que o cinema comercial costuma vender. A esperança colocada em questão, sobre a sobrevivência de duas crianças em um ambiente hostil, está longe de finais felizes e elementos de sorte pelo caminho. Na trajetória dos dois irmãos só há treinamento, sobrevivência e união. Em um dado momento, apanhando da avó, uma das crianças oferece a outra face, citando a Bíblia e a encarando firmemente. É dessa forma, observando e usando a mesquinhez e hipocrisia adulta, que os dois sobrevivem ao mundo durante e pós-guerra.
Apesar da dureza das cenas e acontecimentos, “O Diário da Esperança” faz uso de vários elementos – como a direção de arte e trilha sonora – que não deixam o espectador cair no pessimismo. Ao fugir da realidade, os irmãos se agarram às memórias e sentimentos escrevendo e desenhando no caderno deixado pelo pai. As percepções relatadas ali, em forma de palavras ou imagens, são mostradas através de animações, não deixando que o universo infantil seja simplesmente abandonado. Em “O Diário da Esperança” o espectador é convidado a perceber o horror da guerra não através da gratuidade da opressão mas sim através da transformação da inocência em sobrevivência.

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