The Fox Sisters

(2026) ‧ 2h16

Quando a certeza apaga o mistério

Rapha Ritchie

Em 1848, Maggie e Kate Fox começam a ouvir batidas misteriosas dentro da casa da família, em Hydesville, e logo percebem que aqueles sons aparentemente respondem a perguntas. O episódio transforma duas meninas em atração pública e, com a participação da irmã mais velha, Leah, ajuda a impulsionar o espiritualismo moderno. É uma história cercada por fé, dinheiro, exposição e dúvida, mas sua adaptação parece interessada demais em eliminar justamente essa última camada.

Wagner de Assis assume uma perspectiva espiritualista bastante definida em The Fox Sisters, tratando as manifestações menos como parte de uma controvérsia histórica do que como acontecimentos que precisam ser legitimados. O problema não está na fé do diretor, mas no quanto essa certeza empobrece dramaticamente personagens cuja trajetória sempre esteve atravessada por versões conflitantes.

A fragilidade também aparece na própria materialização desse universo. Para uma produção de época que depende tanto de atmosfera e convencimento visual, o longa frequentemente carrega uma aparência de baixo orçamento difícil de ignorar. A maquiagem é especialmente sofrível em alguns momentos, artificializando rostos e envelhecimentos em vez de ajudar a passagem do tempo, enquanto cortes bruscos e pouco elegantes dão à montagem uma sensação de remendo, como se certas cenas precisassem ser encerradas antes de encontrarem ritmo ou continuidade. Em vez de mergulhar o espectador no século XIX, essas escolhas lembram constantemente a presença da produção por trás da imagem.

Isso pesa ainda mais porque a trajetória real das irmãs já oferece material suficiente para sustentar tensão sem grandes artifícios. Maggie chegou a afirmar publicamente, em 1888, que as batidas eram produzidas pelas próprias irmãs e demonstrou o método, antes de retirar a confissão no ano seguinte. A contradição não encerrou o caso, apenas tornou mais confusa a mistura de crença, sobrevivência, fama e interesse financeiro ao redor delas.

Ao privilegiar uma leitura espiritual bastante fechada e apresentar essa história com uma execução visual pouco convincente, a adaptação perde tanto em complexidade quanto em força cinematográfica. As irmãs Fox permaneceram fascinantes porque nunca couberam perfeitamente numa única versão. Transformá-las em figuras de uma história quase resolvida é diminuir justamente aquilo que manteve seu caso vivo por quase dois séculos.

ONDE ASSISTIR

OUTRAS CRÍTICAS