Toni Erdmann

10.02.2017 │ 07:48

10.02.2017 │ 07:48

A premissa de tratar uma relação conflituosa entre pai e filha pode render um drama corriqueiro sobre relacionamentos familiares, mas a construção, de quase três horas, que a alemã Maren Ade faz em Toni Erdmann consegue ir bem além do básico e coloca a seu serviço o peculiar humor alemão. O longa que concorre ao Oscar na categoria de melhor filme estrangeiro de 2017 já angariou vários prêmios e tem uma versão americana garantida para um futuro próximo.
Winfried Conradi (Peter Simonischek) é um homem que poderia ser a figura clássica do esquisito, quase uma caricatura do chamado perdedor na cultura americana. Vive próximo da mãe e do cachorro idosos. Tem um apego por fantasias, humor e personalidades múltiplas, sempre carrega consigo uma peruca e dentes postiços, preparado para fugir da realidade. Apesar de divorciado, aparenta ter uma boa relação com a ex-mulher e o atual marido, porém, é com a filha Ines (Sandra Hüller), uma executiva linha-dura na indústria do óleo, que ele tem uma relação conflituosa.

Depois de uma perda próxima, Winfried decide se aproximar da filha e segue até a Romênia para que possa recriar laços. É a partir dessa decisão que toda a esquisitice do personagem começa a ganhar forma e passa a ter significados muito interessantes dentro do roteiro de Toni Erdmann. Ines está focada em alcançar o posto que deseja, ela adentrou no mundo dos negócios e muitas vezes se aproxima de uma lógica masculina para conseguir transitar nesse meio. Pela velocidade que o longa se permite construir, muitos subtextos são explorados, como por exemplo a crueldade do mundo dos negócios com as mulheres. Conforme vamos conhecendo Ines e Winfried, o filme coloca a personagem em várias situações costumeiras do meio em que trabalha, muitas desconfortáveis e injustas, outras superficiais e irônicas.
As relações privadas e públicas dos personagens são interligadas, desmistificando a ideia de que as pessoas conseguem transitar tranquilamente entre a vida profissional e particular, como se trocassem de roupas. No caso de Ines, ela respira a vida profissional e mantém a família em um lugar seguro e esquemático. Ela sempre usa roupas formais e se coloca a uma certa distância nas relações, quando se vê cercada pelo pai, suas piadas e exageros de intimidade, acaba colocando em xeque toda sua lógica de vida. É nesse ponto que Toni Erdmann se desenvolve em um ritmo interessante e apresenta situações totalmente passíveis de realidade, sem deixar de serem surreais.

Há uma harmonia incrível entre a direção de Maren Ade e a interpretação da dupla Sandra Hüller e Peter Simonischek, que funcionam muito bem juntos. Toni Erdmann é longo o suficiente para que pai e filha possam se construir diante do espectador. Há uma preocupação para o aparente banal, uma reunião de negócios ou uma festa regada à drogas e álcool, mas é exatamente nessas situações que Ines e Winfried se mostram dois personagens emblemáticos, aproximando-se das nossas vidas reais. Há também boas doses de desconstrução, sempre usando a sátira e o humor – peculiar aos alemães – que está em uma linha tênue do riso e do bizarro provocador.

Toni Erdmann é mais sobre sobre encarar o estranho da vida – e aceitar que ele transita no cotidiano e lhe é necessário – do que um filme simplório da relação entre pai e filha. O longa permite que nos encontremos diante de cenas tão particulares, que muitas vezes não nos damos conta de sua divertida necessidade para que possamos seguir em frente. Um longa simples, porém com um roteiro cheio de particularidades que coloca o espectador frente a frente com toda a estranheza da vida.
Nota:

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