Trilha Sonora para um Golpe de Estado

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22.01.2025

O concorrente ao Oscar de Melhor Documentário de Longa-metragem “Trilha Sonora para um Golpe de Estado” é um soco no estômago regado a boa música

Nem sei por onde começar, meu caro leitor. Nem sei. Passei dias pensando neste documentário visceral, super atual e que me encheu de tristeza ao final da experiência. Mas vou deixar bem claro que minha tristeza está ligada ao tema, não à maneira incrivelmente original e dinâmica que a história foi contada. Tão potente que vou ter que ver algumas vezes para pegar mais detalhes.

De maneira básica e simplista, o documentário fala muito sobre a história da África na década de 1960. Sobre a independência dos muitos países desse continente, sua integração à ONU, formando um bloco de interesses mútuos juntamente com vários países da Ásia, e desestabilizando a hegemonia dos Estados Unidos e seus aliados, presente até então. Mas como a obra de Magritte, Isto Não é um Cachimbo, qualquer intervenção americana, apoiada pela ONU, não é um golpe de estado. Claro que não.

O destaque do filme fica com o Congo, dominado pela Bélgica, que trabalha para conquistar sua independência, com um líder muito carismático ganhando destaque mundial: Patrice Lumumba. E é lindo ver Lumumba desestabilizando governos com seus discursos poderosos. Mas de maneira triste, uma das maiores reservas de urânio do mundo está no Congo. Estamos falando da década de 1960, em meio à Guerra Fria, quando ter bombas atômicas era realmente importante. Não que algo tenha mudado, mas lá na década de 1960, sendo uma colônia e portando lutando contra um país europeu com dinheiro e influência, que conta com o apoio dos Estados Unidos (os mocinhos, pois os comunas estavam na ex-URSS) e da ONU…o Congo e Lumumba estavam realmente fodidos.

E como pano de fundo para tudo isso, temos uma cortina de fumaça tremenda, lançada pelos Estados Unidos, na forma de música. Tentando penetrar nos recém-libertos países africanos, e influenciá-los (antes que os comunistas conseguissem primeiro), os Estados Unidos criam embaixadores do jazz e enviam esses missionários para a África para catequizar os africanos com a música que tinha um forte apelo na época. Assim, Louis Armstrong, Nina Simone, Duke Ellington e Dizzy Gillespie foram ao continente africano, enviados pelo governo, eles pensavam, com bons propósitos, mas na verdade em caravanas que acompanhavam agentes da CIA, que espionavam ou criavam distrações para o povo enquanto golpes de estados aconteciam (mas não se preocupe, não era um golpe de estado, Magritte concordaria). Nem preciso contar que os artistas ficaram putos quando descobriram, né?

E se você, caro leitor, se perdeu lendo esses rabiscos que chamo de resenha, pode ficar tranquilo. É complicado mesmo. Mas é imprescindível assistir, entender um pouco mais sobre nosso passado, as maquinações dos países poderosos, tentando controlar riquezas, independente de onde estejam, sem medir esforços, sem se importar se pessoas vão morrer. O importante é que não morram os mocinhos, normalmente homens, brancos, ricos.

Então bora correndo pro cinema, pois este é um filme de cinema, com cenas grandes. Ideias enormes. Muitas pessoas pequenas e mesquinhas, mas outras muitas incríveis, que você nunca deve ter ouvido falar, mas vai ficar muito feliz de conhecê-las. Meu coração se encheu de alegria de conhecer Patrice Lumumba, de saber que tal pessoa fez tudo que fez. Já ganhei meu dia. Corre ganhar o seu.

ONDE ASSISTIR

AUTOR

Melissa Correa

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