Tron: O Legado

(2010) ‧ 2h05

"Tron: O Legado": O retorno à grade digital

Felipe Fornari

A ideia de uma continuação para Tron: Uma Odisseia Eletrônica sempre pareceu desafiadora. O filme de 1982 é lembrado mais pela ousadia visual do que pela clareza de sua trama, e em Tron: O Legado a Disney segue por um caminho parecido: entrega um espetáculo de imagens e sons arrebatadores, mas nem sempre com a mesma consistência narrativa. O resultado é um blockbuster com alma de videoclipe futurista.

Visualmente, é impossível não se impressionar. O design da grade digital é todo construído sobre superfícies negras, linhas de neon e figurinos justos, compondo um universo estilizado e coerente com a estética cultuada do original. A trilha de Daft Punk amplifica essa experiência, fazendo o filme pulsar como uma imersão musical eletrônica. Por outro lado, a história tenta sustentar um peso maior do que consegue carregar.

A trama acompanha Sam (Garrett Hedlund), filho de Kevin Flynn (Jeff Bridges), que acaba transportado para o mesmo mundo virtual onde o pai desapareceu décadas antes. Lá, ele descobre não apenas o verdadeiro Flynn, agora mais parecido com um mentor zen, mas também Clu, uma versão digital e tirânica de seu pai jovem. A ideia é interessante, mas a execução muitas vezes recorre a explicações longas e pouco convincentes, deixando a narrativa mais confusa do que instigante.

O maior atrativo de Tron: O Legado está nos momentos de ação, que reproduzem a dinâmica de videogames com arenas de combate e as icônicas corridas de motos de luz. Nessas sequências, o filme atinge seu auge: é vibrante, divertido e entrega exatamente o que os fãs esperavam ver. Ainda assim, quando o ritmo desacelera, as inconsistências do roteiro e a falta de aprofundamento dos personagens ficam mais evidentes.

Há também excessos que beiram o caricatural. A participação de Michael Sheen como um excêntrico dono de boate digital, por exemplo, destoa completamente do tom do resto do filme e flerta com a paródia involuntária. Momentos assim quebram a imersão e reforçam a impressão de que o filme não sabe equilibrar seriedade e espetáculo.

Por vezes, a lógica interna desse mundo virtual se perde. Elementos aparecem sem justificativa clara, e a mistura entre símbolos digitais e objetos analógicos levanta mais perguntas do que respostas. O espectador que tentar buscar coerência pode acabar frustrado. O melhor é embarcar sem questionar muito, aceitando a experiência como um show de estilo mais do que como uma ficção científica sólida.

No fim, Tron: O Legado funciona como uma vitrine de efeitos visuais e sonoros, uma atualização moderna do impacto visual que o primeiro filme teve em sua época. Pode não conquistar prêmios ou entrar para a história como obra-prima narrativa, mas cumpre bem seu papel como espetáculo. É um filme bonito, pulsante e, ainda que um tanto caótico, capaz de divertir quem entrar no jogo.

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