Um Corpo que Cai

(1958) ‧ 2h08

A vertigem de amar uma imagem

Felipe Fornari

Em Um Corpo que Cai, Alfred Hitchcock parte de um mistério para construir algo muito mais perturbador: um filme sobre obsessão, desejo e a tentativa impossível de transformar outra pessoa na imagem que desejamos possuir. John “Scottie” Ferguson abandona a polícia depois que sua acrofobia contribui para a morte de um colega e passa a levar uma existência quase suspensa, até receber de um antigo conhecido a tarefa de seguir sua esposa, Madeleine. A mulher parece dominada pela memória de uma antepassada morta e percorre São Francisco como se estivesse sendo atraída por outro tempo. Scottie deveria apenas observá-la, mas sua investigação gradualmente se converte em fascínio, paixão e, finalmente, obsessão.

James Stewart oferece uma das interpretações mais inquietantes de sua carreira justamente porque Hitchcock utiliza contra o espectador a familiaridade de sua imagem. Scottie começa vulnerável, traumatizado e aparentemente digno de nossa solidariedade. Ao seguir Madeleine por museus, cemitérios, hotéis e ruas, porém, transforma-se em um voyeur cuja relação com aquela mulher nasce antes pela contemplação do que pelo contato. A câmera frequentemente assume seu olhar e nos obriga a compartilhar esse desejo à distância. Quando ele finalmente se aproxima dela, já não estamos diante de um encontro amoroso convencional, mas de um homem apaixonado por uma construção que mal compreende.

Kim Novak é essencial para que essa construção funcione. Sua Madeleine possui uma qualidade quase sobrenatural, reforçada pelos figurinos, pela iluminação e pela maneira como Hitchcock a apresenta frequentemente como uma figura pertencente mais à memória do que ao presente. São Francisco também deixa de funcionar apenas como cenário e se transforma em extensão desse estado mental. A Golden Gate, o museu, as sequoias e a missão espanhola parecem lugares presos entre diferentes épocas. Bernard Herrmann completa esse universo com uma trilha formada por movimentos circulares e recorrentes, como se música, personagens e imagens estivessem condenados a retornar continuamente ao mesmo ponto.

A vertigem que dá forma a Um Corpo que Cai é física, mas também emocional. Hitchcock encontra uma solução visual revolucionária para representar a acrofobia de Scottie, fazendo o espaço simultaneamente se aproximar e se afastar diante dele. Entretanto, o verdadeiro abismo está na incapacidade do personagem de controlar aquilo que ama. Quando Madeleine sobe a torre e Scottie não consegue acompanhá-la, sua limitação física se converte em culpa. A partir daí, o filme parece desmoronar junto com seu protagonista, abandonando progressivamente o mistério para mergulhar em uma experiência de perda, melancolia e repetição.

É justamente quando Hitchcock revela ao espectador uma informação decisiva antes de Scottie conhecê-la que o filme realiza seu movimento mais ousado. Em vez de preservar a surpresa para o desfecho, o diretor modifica completamente a natureza do suspense. Passamos a observar não mais a descoberta de um segredo, mas as consequências emocionais de conhecê-lo. Judy deixa de ser apenas uma possível resposta para o mistério e se torna uma personagem aprisionada pelo desejo de Scottie, que começa a reconstruí-la segundo sua lembrança de Madeleine. Cabelo, roupas, maquiagem e gestos são impostos progressivamente até que uma mulher real praticamente desapareça sob a imagem de outra.

Essa transformação produz algumas das cenas mais belas e desconfortáveis de toda a filmografia de Hitchcock. Quando Judy finalmente surge completamente recriada como Madeleine, envolvida por uma iluminação esverdeada quase fantasmagórica, Scottie contempla não uma pessoa, mas a realização de sua fantasia. O beijo que se segue mistura presente e passado enquanto o espaço ao redor deles parece se transformar, visualizando uma obsessão que aboliu qualquer fronteira entre memória e realidade. Há algo profundamente cruel nessa sequência: Scottie acredita estar recuperando a mulher perdida enquanto destrói simbolicamente aquela que está diante dele. O romance converte-se definitivamente em posse.

Um Corpo que Cai permanece extraordinário porque nenhuma explicação sobre sua trama consegue encerrar aquilo que suas imagens provocam. Existem improbabilidades, lacunas e comportamentos difíceis de justificar racionalmente, mas o filme opera com a lógica de um sonho que progressivamente se transforma em pesadelo. As espirais dos créditos de Saul Bass, a música de Herrmann, o movimento circular dos personagens e a vertigem de Scottie conduzem todos novamente ao mesmo lugar, até um desfecho tão devastador quanto inevitável. Hitchcock realizou muito mais do que um suspense sobre um crime: criou uma tragédia sobre a impossibilidade de ressuscitar o passado e sobre o perigo de amar não quem alguém realmente é, mas a imagem que construímos dessa pessoa.

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