Virtuosas

(2025) ‧ 1h32

A violência por trás da perfeição

Felipe Fornari

Em Virtuosas, nada parece particularmente ameaçador à primeira vista. Mulheres sorridentes chegam a um retiro cuidadosamente organizado, vestem roupas impecáveis e participam de atividades destinadas a ensiná-las a alcançar uma suposta versão ideal da feminilidade cristã. Cíntia Domit Bittar, porém, filma toda essa delicadeza como se alguma coisa terrível estivesse escondida sob sua superfície. Quanto mais perfeito parece aquele universo, maior é a sensação de que existe algo profundamente perturbador em suas regras.

Virgínia, interpretada com precisão por Bruna Linzmeyer, ocupa o centro dessa estrutura como líder capaz de alternar acolhimento e controle quase sem modificar o tom de voz. Ao redor dela, Germina, Lorena, Gorete e Bárbara procuram maneiras distintas de pertencer àquele grupo, estabelecendo uma relação em que admiração e rivalidade rapidamente se confundem. A busca pela virtude acaba produzindo justamente aquilo que o discurso pretende rejeitar: competição, inveja, ressentimento e uma necessidade constante de provar quem consegue representar melhor o modelo estabelecido.

Uma das decisões mais interessantes do filme está em construir um universo feminino permanentemente organizado em torno de homens que praticamente não estão presentes. Maridos orientam comportamentos mesmo à distância, enquanto casamento, submissão e aprovação masculina determinam aquilo que essas mulheres devem desejar. A ausência física acaba tornando essa influência ainda mais evidente. Não é necessário que alguém esteja ali para impor determinadas regras quando elas já foram assimiladas por quem passa a reproduzi-las e fiscalizá-las nas demais.

Bittar compreende ainda que ridicularizar essas personagens seria uma solução fácil demais. Virtuosas possui humor ácido e reconhece o absurdo de muitas situações, mas prefere observar com inquietação como discursos ultraconservadores podem adquirir aparência sedutora quando apresentados como caminhos para felicidade, estabilidade e pertencimento. A casa isolada, os tons suaves, os cabelos perfeitos e os gestos cuidadosamente controlados criam uma artificialidade proposital. Aos poucos, aquilo que parecia acolhedor ganha algo de sufocante, como se cada demonstração de perfeição exigisse a eliminação de outra parcela da individualidade.

Essa construção também aproxima gradualmente o longa do terror. A invasão da intimidade se torna habitual, os corpos passam a ser observados e julgados, e a fronteira entre cuidado e vigilância praticamente desaparece. Há uma boa tensão na maneira como a diretora prolonga a sensação de que aquela convivência inevitavelmente entrará em colapso. Em vez de recorrer rapidamente à violência, o filme deixa pequenas fissuras aparecerem naquele ambiente controlado, fazendo com que um comentário, um olhar ou uma porta atravessada sem permissão adquiram dimensões ameaçadoras.

Nem todas as soluções possuem a mesma precisão. Algumas conveniências do roteiro facilitam demais descobertas e confrontos, especialmente quando personagens encontram informações ou escutam conversas porque aquele ambiente estranhamente parece não conhecer fechaduras, senhas ou qualquer cuidado com segredos. Há também momentos em que a provocação conceitual se torna mais evidente do que a naturalidade das situações. São fragilidades perceptíveis, mas não suficientes para desmontar uma construção formal e temática que sabe exatamente o desconforto que pretende provocar.

Quando Virtuosas finalmente permite que a ordem cuidadosamente preservada se rompa, a violência surge como consequência lógica de tudo aquilo que já estava presente sob os sorrisos. Cíntia Domit Bittar constrói uma sátira que gradualmente se revela um filme de horror e, mais importante, evita oferecer respostas confortáveis para aquilo que denuncia. O resultado é provocador justamente porque entende que certas formas de controle não precisam parecer monstruosas para serem assustadoras. Às vezes, o horror pode vestir tons pastel, falar suavemente, citar virtudes e receber suas vítimas com um sorriso perfeito.

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