Vitória

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06.03.2025

Resistência e coragem em "Vitória"

Aos 95 anos, Fernanda Montenegro volta a impressionar ao interpretar a protagonista de Vitória, um drama inspirado na história real de Joana Zeferino da Paz. No longa dirigido por Andrucha Waddington e Breno Silveira (que faleceu durante a produção do longa), a atriz dá vida a uma idosa solitária que decide registrar a ação do tráfico de drogas em sua vizinhança, enfrentando riscos e incertezas em busca de justiça. Com uma abordagem envolvente e um viés quase documental, o filme destaca a resiliência de uma mulher comum diante de um cenário hostil.

A narrativa acompanha Vitória em sua rotina silenciosa até que a violência ao redor de seu apartamento se torna impossível de ignorar. Munida de uma câmera, ela grava a movimentação dos criminosos e, aos poucos, sua cruzada atrai a atenção do jornalista Fábio Gusmão (Alan Rocha), que se torna um aliado em sua missão. A relação entre os dois adiciona camadas à trama, trazendo momentos de cumplicidade e esperança em meio à tensão crescente.

Mesmo se apoiando em eventos reais, Vitória faz escolhas narrativas que levantam discussões. A mais notável delas é a alteração da identidade da protagonista, originalmente uma mulher negra, para ser interpretada por Fernanda Montenegro. A decisão, tomada inicialmente para preservar a verdadeira Joana da Paz enquanto ela ainda estava viva, levanta questionamentos sobre representatividade no cinema brasileiro. Ainda assim, a presença magnética de Montenegro garante uma performance que equilibra força e vulnerabilidade, conduzindo a história com maestria.

A direção aposta em uma estética sóbria e claustrofóbica, reforçando a sensação de isolamento da protagonista. A fotografia utiliza tons apagados e planos fechados para transmitir o peso da vigilância constante e do perigo que se aproxima. O ritmo do filme cresce gradualmente, transformando um ato solitário de resistência em um thriller investigativo, sem perder de vista o aspecto humano da jornada da protagonista.

Além da protagonista, o elenco de apoio complementa bem a história. Alan Rocha constrói um jornalista sensível e atento, cuja interação com Vitória vai além da curiosidade profissional, tornando-se uma relação de respeito e admiração. Os personagens secundários ajudam a ampliar o impacto do contexto social, tornando a narrativa ainda mais relevante.

No fim, Vitória não é apenas um filme sobre denúncia e justiça, mas também sobre o poder da persistência. Com uma trama tensa e uma atuação memorável de Fernanda Montenegro, o longa reforça a importância de dar voz a histórias de coragem.

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AUTOR

Felipe Fornari

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